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I – A LITURGIA NO CONCÍLIO VATICANO II

Celebrando os cinquenta anos do início do Concílio Vaticano II, a Igreja retoma, com novo ardor e com renovado entusiasmo, uma reflexão sistemática sobre os textos e os ensinamentos conciliares. Creio ser momento oportuno para redescobrir as riquezas ali contidas, mas, acima de tudo, ocasião para aprofundar temas essenciais à vida da Igreja, por vezes abordados e transmitidos de modo inadequado, a partir de visão superficial, sem a devida profundidade. Tem-se a impressão de que, em muitos segmentos da vida da Igreja, a renovação desejada pelo Concílio se ateve ao exterior, ao epidérmico, e não incorporou a compreensão do verdadeiro Mistério da Igreja.

Sente-se, em vários setores da vida eclesial, de um lado, uma decepção difusa por não termos conseguido, como era de se desejar, renovação mais consistente, mais duradoura, mais efetiva. Por outro lado, vivemos momento de impasse. Houve avanços significativos, mas também fortes resistências ao novo momento eclesial inaugurado pelo ConcílioEssas reações não só persistem em nossos dias, como são responsáveis pelo processo de volta ao passado, de retorno à tradição do Concílio de Trento, gerando perplexidade e incertezas.

É bem verdade que o Concílio de Trento (1545- 1563) já havia posto em relevo as duas mesas: a da palavra de Deus e a da refeição do Senhor. No entanto, a gravidade dos abusos que se tinham introduzido nas celebrações monopolizaram a atenção dos Padres Conciliares. O Papa Pio V (1566-1572), depositário fiel das intenções do Concílio de Trento, ao compor os novos livros litúrgicos, tinha como grande objetivo reconduzir os fiéis à oração da Igreja. O Papa Sixto V (1585-1590) instituiu as Congregações Romanas, dentre elas, a Congregação para os Ritos Sagrados e os Sacramentos. Do século XVII ao XX, o excesso da dimensão jurídica e a casuística litúrgicas tomaram lugar preponderante no culto, na prática e no ensino da liturgia.

O Movimento Litúrgico dos séculos XIX e XX, inspirado nas fontes da celebração e da espiritualidade da Igreja primitiva, resgatou, de modo particular, a participação ativa, consciente e plena dos cristãos na liturgia, enfatizando as dimensões teológica, espiritual e pastoral. O Magistério da Igreja assumiu os grandes temas do Movimento Litúrgico.

O Papa Pio X (1903-1914), particularmente no Motu Proprio Tra le sollecitudini  (1903),manifestou a intenção de promover a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública da Igreja (Introdução). O Papa Pio XII (1939-1958) deu passo importante ao assumir as principais propostas do Movimento Litúrgico na Encíclica Mediator Dei (1947) ,dando-lhes o aval do Magistério oficial da Igreja.

Ao anunciar o Concílio Vaticano II (25 de janeiro de 1959), o Papa João XXIII tinha em mente promover uma renovação na vida da Igreja. Os temas trabalhados nos períodos antepreparatório e preparatório do Concílio foram decisivos para as proposições dos textos a serem discutidos em aula conciliar. A temática foi retomada e amplamente examinada na elaboração da Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium.

No discurso inaugural do Concílio Vaticano II, João XXIII evidenciou os objetivos principais do Concílio: retomar a doutrina da Igreja, recebida de Cristo, e expô-la numa linguagem nova, mais inteligível aos homens de hoje, mais de acordo com as exigências atuais. Dar roupagem nova a uma doutrina antiga. Ir ao encontro do homem atual. O Concílio procurou responder a esses objetivos. As ideias-força foram: renovação, adaptação e inculturação, descentralização, serviço e participação[1] 

Poder-se-ia perguntar por que o Concílio iniciou suas atividades pela liturgia. Ocorre que os outros projetos apresentados como sugestões para os debates não agradaram a imensa maioria dos Padres conciliares. O projeto sobre a liturgia, no entanto, estava muito bom. Fora preparado cuidadosamente pela Comissão pré-conciliar, coordenada pelo Pe. Anibale Bugnini (1912-1982) e inspirada nos princípios teológicos do Movimento Litúrgico. Por esse motivo, os Padres conciliares começaram analisando o projeto sobre a liturgia.

O texto foi inicialmente votado na IIª Sessão, em 1963. Na 73ª Congregação Geral (02-11-63), o esquema foi aprovado por 2.158 votos favoráveis contra 19 contrários. Na Sessão solene de 04-12-1963, presidindo o Papa Paulo VI, recebeu apenas 04 votos negativos e 2.147 de aprovação. Foi então promulgado solenemente.

A Constituição Sacrosanctum Conciliumsobre a Liturgia é composta de 7 capítulos: 1. Os princípios gerais da reforma e do incremento da liturgia. 2. O Sacrossanto Mistério da Eucaristia. 3. Os demais Sacramentos e os Sacramentais. 4. O Ofício Divino. 5. O Ano Litúrgico. 6. A Música Sacra. 7. A Arte Sacra e as Sagradas Alfaias.

Percorrendo este documento conciliar, percebemos que a preocupação fundamental do Concílio foi a de proporcionar aos fiéis uma participação ativa, consciente e frutuosa na sagrada liturgia, exercendo dessa forma o sacerdócio batismal que os constituiu uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus” (1Pd 2,9). A participação dos fiéis é, antes de tudo, um dom, uma graça; depois, um direito e um dever. 

Pe. Valter Maurício Goedert – professor de liturgia e sacramentos
Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041
88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com

[1] Cf. VALENTINI,  D.  – Revisitar o Concílio Vaticano II, São Paulo, Paulinas, 2011, pp. 31-34.

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