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I – DECRETO PERFECTAE CARITATIS» – SOBRE A ATUALIZAÇÃO DA VIDA RELIGIOSA

INTRODUÇÃO

Meio século do início do Concílio Ecumênico Vaticano II! Toda a Igreja, envolvida então, nos seus mais variados aspectos e segmentos, no memorável Pentecostes conciliar, tem hoje o dever de gratidão de lembrar e celebrar. Lembrar os ricos documentos que, de sessão em sessão, fruto de intenso trabalho dos padres conciliares, acompanhado pela oração e a expectativa do povo cristão, foram sendo elaborados e passaram a constituir a nova “biblioteca” da Igreja do “aggiornamento”. Celebrar esse novo rosto da Igreja, estampado na literatura do Concílio, o rosto da nossa Igreja de hoje, só conhecida assim, no concreto de sua vivência da fé, pela geração pós-conciliar, que não viveu a empolgação do momento dessa transformação.

Nessa “biblioteca” conciliar, entre as 16 “obras”, votadas e promulgadas até a conclusão do Concílio em 1965, aparece em décimo lugar o Decreto PERFECTAE CARITATIS sobre a atualização da Vida Religiosa.

É um documento relativamente curto, abrangendo, sob 23 subtítulos, todo o leque de formas de vida caracterizadas pelo elemento comum da profissão dos conselhos evangélicos. Ao longo de 69 números, ou cânones (1216-1283), o Decreto apresenta uma introdução geral, falando a seguir sobre Princípios Gerais e Critérios Práticos de Atualização; focaliza elementos comuns a todas as formas de vida consagrada, fazendo referência explícita às formas mais comuns desta opção de vida, que são as Ordens Contemplativas, ou de Clausura, as Congregações de vida ativa, ou apostólicas, e os Institutos Seculares; acentua o Primado da Vida Espiritual; fala sobre os três conselhos evangélicos, que são objeto dos votos religiosos, sobre a Vida Comum, o hábito religioso, a Formação, as Obras dos Institutos, as Conferências Nacionais e o fomento das Vocações Religiosas.

O tema da Vida Religiosa, ou vida de especial consagração, já fora amplamente discutido no contexto da Constituição Dogmática Lumen Gentium, com a preocupação também de definir o seu lugar na estrutura divina e hierárquica da Igreja (LG 16), em relação aos dois estados constitutivos dessa estrutura: o clerical e o laical. A esse respeito diz a Lumen Gentium, no capítulo VI, que trata desse tema sob o título genérico: OS RELIGIOSOS, que “e mbora não pertença à estrutura hierárquica da Igreja, [a vida consagrada] está firmemente relacionada com sua vida e santidade” (LG 120).

Como todos os demais temas tratados ao longo das quatro sessões conciliares, de 1962 a 1965, que resultaram nos respectivos documentos, também o projeto original sobre a Vida Religiosa foi objeto de muitas intervenções e discussões, embora não tão acaloradas quanto muitos outros temas, até que,    ampliado, modificado, reelaborado e, finalmente, intitulado Perfectae Caritatis, foi submetido à primeira votação no dia 11 de outubro de 1965, recebendo apenas treze votos contrários.

Após essa aprovação, e tendo sido ainda considerados os argumentos relativos aos votos contrários, o texto, em sua redação definitiva, foi levado à última votação, entre um total de cinco decretos, na sessão pública do dia 28 de outubro do mesmo ano, quando foi aprovado quase que por unanimidade, com apenas, ainda, quatro votos contrários.

Um aspecto interessante chama a atenção na discussão e titulação deste Decreto: Se a palavra-chave dada pelo Papa João XXIII como motivação para a convocação do Concílio foi o termo aggiornamento (= atualização, adaptação), é sintomático que somente o tema da Vida Consagrada foi, explicitamente, tratado sempre com essa conotação de atualização, renovação, adaptação. 

O que se discutia, e finalmente se aprovou, foi um decreto sobre a necessidade da atualização da vida consagrada, a conveniente renovação da vida religiosa. O termo aparece explícito em vários momentos do Decreto, como mostram alguns exemplos aqui aduzidos: A atualização (aggiornamento) da vida religiosa compreende… (PC 1219); A organização … há de adaptar-se… (PC 1225); … as constituições …sejam revistas e adaptadas… (PC 1227); uma renovação eficaz e atualização correta depende de … (1228); para a adaptação … às exigências de nosso tempo… (1270).

Certamente não era o valor da vida consagrada em si, nem da sua presença no corpo e na vida da Igreja, que se questionava, ou, de alguma forma, se punha em dúvida. O que ficou evidente era a preocupação dos padres conciliares, de todo o mundo, com as muitas exterioridades e práticas concretas, sacramentadas pelo uso e o tempo, que acabavam caracterizando mais, e exteriormente, essa forma de vida, em detrimento, muitas vezes, da compreensão do verdadeiro sentido intrínseco da consagração religiosa.

 Em última análise, era preciso redescobrir e reafirmar, em meio ao complexo emaranhado de elementos acidentais, a essencial simplicidade do ideal da opção por essa forma de vida: o seguimento mais radical de Jesus Cristo, segundo os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência.

Ir. Clea Fuck
Irmã da Divina Providência
Durante 14 anos, secretária alemã na
União Internacional das Superioras Gerais (UISG), em Roma

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