Deixe um comentário

I – NECESSIDADE DE REFORMA

O Concílio promoveu uma grande virada no modo de a Igreja se ver a si mesma e em sua relação com o mundo, com as outras igrejas e com as religiões, na celebração da liturgia e na leitura da Bíblia.

Para entender a virada promovida pelo Concílio Vaticano II, convém situar historicamente este grande evento, que marca hoje a nossa história.

O Concílio Vaticano II foi a primeira ocasião, no longo período de seus 2000 anos, em que a Igreja parou para refletir sobre si mesma e para se enxergar através dos olhos do mundo. Desde o século IV, quando o cristianismo foi assumido como religião oficial do Império Romano, a Igreja havia assumido uma postura conflitiva na sua relação com o mundo. Para efeito didático, esta relação poderia ser assim apresentada:

Na segunda metade do primeiro milênio, dos anos 400 a 1000, houve supremacia do Império sobre a Igreja, os reis e imperadores interferindo nas coisas eclesiásticas, na escolha de bispos, na criação de dioceses, nas decisões de concílios e sínodos etc., com graves prejuízos para a liberdade da Igreja e o anúncio do Evangelho.

A primeira metade do segundo milênio, dos anos 1000 a 1500, foi caracterizada como a época da cristandade medieval, com a supremacia da Igreja sobre a sociedade, com o Papa interferindo sobre as coisas civis e temporais. Nessa época, aconteceram as duas grandes divisões da Igreja: em 1054, o cisma entre Oriente e Ocidente; no século XVI, a separação das igrejas da Reforma. A imposição da verdade e a preocupação com o poder fizeram com que a Igreja se tornasse protagonista de fatos claramente anti-evangélicos, como a inquisição e o genocídio de culturas e povos indígenas.

Na segunda metade do segundo milênio, dos anos 1500 até o Concílio Vaticano II, houve um movimento progressivo de fechamento da Igreja, de distanciamento com relação ao mundo, de oposição entre Igreja e mundo, com a Igreja se afirmando como sociedade perfeita, com leis, estruturas e quadros próprios, em competição ou oposição com o mundo.

Em todo esse tempo, foi intenso e persistente o desejo de reformas. Por trás de toda essa movimentação reformística estava a certeza de que a Igreja não pode viver sem o mundo. Ela é, por sua própria constituição, fermento na massa, semente na terra, sal na comida, grão lançado à terra. Fora do mundo, a Igreja se perde, o grão apodrece sem poder germinar. Fora do mundo, a Igreja não tem salvação.

Eis uma breve resenha dos principais anseios de reforma:

No século XI, com o papa Gregório VII, a Igreja que vivia sob a influência de reis e imperadores, promove grande reforma, em busca da liberdade diante do poder civil, para poder escolher seus papas e bispos, criar suas instituições etc. Problema foi terem as coisas se invertido: a Igreja, com o fortalecimento do papado, passa a dominar o poder civil e a interferir nos domínios dos estados e da sociedade.

O século XII foi marcado pelos movimentos pauperistas ou mendicantes, que queriam uma Igreja mais pobre e simples, despojada da pompa e do poder. Alguns desses movimentos (franciscanos e dominicanos) foram integrados na estrutura eclesial, enquanto outros (cátaros, albigenses) enveredaram pelo caminho da heresia.

Os grandes reformadores do século XVI (Lutero, Calvino, Zwinglio) reagiram ao poder papal, ao materialismo da Igreja romana, ao apego às estruturas de poder; pretendiam uma Igreja mais bíblica e espiritual, que se reconhecesse toda inteira como povo sacerdotal.

A resposta proporcionada pelo Concílio de Trento (1545-1563), seja na área da doutrina (relação entre graça divina e liberdade humana, o realismo do pecado original, a sacramentalidade da fé etc.), seja na disciplina (obrigatoriedade de residência para os bispos, o cuidado na formação do clero etc.), foi fecunda e fez surgir muitas congregações de corte missionário. Mas, o apego ao poder levou ao surgimento de uma eclesiologia da “sociedade perfeita”, visível, jurídica em que a Igreja é comparada a uma instituição puramente visível.

Durante o século XIX, a Escola de Tübingen, na Alemanha, vinha apresentando algumas propostas de reformas, com maior realce à presença do Espírito Santo na vida da Igreja, ideias que foram abortadas pelo Concílio Vaticano I, em 1870, que fortaleceu definiu o primado romano sobre a Igreja universal e o dogma da infalibilidade papal.

Diversos movimentos (litúrgico, bíblico-catequético, ecumênico, missionário etc.), o estudo da Patrística, a Ação Católica, a nova teologia, movimentos leigos de apostolado e de espiritualidade, prepararam, no decorrer do século XX, o caminho que daria no Concílio Vaticano II.

É necessário frisar que o ambiente cultural marcado pelas filosofias do existencialismo e do personalismo, a experiência dramática das duas grandes guerras mundiais, a criação da ONU e a promulgação dos Direitos Humanos, também contribuíram para a realização do Concílio Vaticano II, acontecimento de enorme repercussão dentro e fora da Igreja.

Pe. Vitor Galdino Feller

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: