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I – CONTEXTO GERAL ANTERIOR AO DOCUMENTO

A grande maioria dos documentos da Igreja Católica, no âmbito universal, tem seu nome na forma latina, e o seu significado (ou sua forma traduzida) costuma vir explicitado no seu primeiro parágrafo. Estamos, pois, falando do Decreto Apostolicam Actuositatem [1], que aborda justamente a atividade apostólica do Povo de Deus e, destacadamente, o apostolado dos leigos e leigas que são a grande maioria dos batizados que constituem a Igreja.

Vamos antes ao contexto que nos traz a esse decreto conciliar. Conforme a apresentação geral deste blog, viveremos de 11 de outubro deste ano a 23 de novembro de 2013 o chamado “Ano da Fé”, em que o Papa Bento XVI convoca toda a Igreja a redescobrir o caminho da fé [2]. A data inaugural é duplamente significante, pois nela se celebrarão 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II e 20 anos da publicação do atual Catecismo da Igreja Católica.

De fato, redescobrir a fé – e, mais que isso, ressignificá-la a cada novo tempo da história – é tarefa essencial dos que crêem, a fim de se manterem fiéis às origens da mesma fé, levando em consideração os desafios e as linguagens dos novos tempos. E isso vale de modo especial para o Concílio Vaticano II, momento de especial aggiornamento [3] na vida da Igreja, no sentido do diálogo que procurou estabelecer com a cultura moderna.

Talvez não caiba aqui discorrer sobre a importância do Concílio Vaticano II, óbvia que é pelo que representou em si e pelo fato de ter sido o último Concílio realizado desde então, em que pese grande parte dos cristãos/católicos pouco ou nada saibam sobre ele, seus documentos e seu legado. Contudo, faz-se mais do que necessário ampliar a recepção e a celebração do mesmo na vida da Igreja, uma vez que a sua mensagem segue atual e necessária.

O Concílio Vaticano II deu vazão a um até então inexistente diálogo com a cultura, especialmente a da modernidade. Os tempos em que vivemos, por sua vez, são chamados pela maioria dos pensadores atuais de pós-modernos, mas alguns o qualificam como hipermodernos. A verdade é que, mesmo que seja adequado falar numa mudança de época (“pós”), há continuidades, inegavelmente, inclusive com exacerbações (“hiper”) de condições históricas anteriores.

A título de exemplo, o individualismo, a economia capitalista (que, mesmo em crise, mantém-se vigente, tanto que as nações é que têm se sacrificado em seu socorro – vide a crise fiscal global, notadamente na Europa) e a razão técnico-científica são marcas da modernidade, e nunca foram tão extremados como nos últimos anos. Logo, se o Concílio Vaticano II procurou dialogar principalmente com a modernidade, são efetivamente atuais e necessárias as suas indicações pastorais. [4]

O “pré”-texto desse documento importantíssimo (e inovador, em termos conciliares), ou seja, o contexto geral anterior à sua idealização, elaboração, votação, promulgação e publicação/divulgação, remonta a alguns movimentos que antecederam o Concílio Vaticano II e que, de algum modo, deram-lhe causa, bem como a uma nova concepção de Igreja que o colégio apostólico abraçou. Movimentos marcados, como se diz, por um sopro intenso do Espírito Santo de Deus.

Esses movimentos formaram “um pano de fundo decisivo para se entender o passo conciliar” [5], e poderiam ser representados, dentre outros, pela Nouvelle Theologie [6] e pela Ação Católica. Esta última, especialmente, estava referenciada aos leigos da época e ao seu desejo, bem como ao de muitos membros da hierarquia – diáconos, padres e bispos –, de participar de forma mais intensa e ativa na vida cotidiana da Igreja.

A Ação Católica foi uma série de movimentos que foram constituídos pela Igreja na Europa, no início do século XX, visando ampliar sua influência na sociedade, seja através da inclusão de setores específicos do laicato, seja pelo fortalecimento da fé cristã, com base na Doutrina Social da Igreja. Foi nela que se desenvolveu, inclusive, o conhecido método de reflexão “ver-julgar-agir”. Nesse impulso, o Concílio Vaticano II se abriu a redefinir o papel do laicato no seio da própria Igreja.

Importa, também, antes de adentrarmos o documento em si, abordar o que o teólogo Medard Kehl [7] chamou de “virada copernicana” da eclesiologia. Essa nova concepção de Igreja abriu um espaço precioso para uma também nova compreensão do papel dos leigos nas atividades da mesma. Nesse sentido, vale a pena pincelarmos o que Constituição Dogmática Lumen Gentium nos informa a respeito do laicato, o que faremos no próximo artigo.

Klaus da Silva Raupp


[3] Trata-se de um termo utilizado pelo Papa João XXIII, já na sua primeira Encíclica (Ad Petri Cathedram), de 1959, e em outros discursos, visando-se, com o Concílio, não a discussão sobre as verdades fundamentais da doutrina cristã, mas a sua atualização (renovação) e o seu aprofundamento, para que fossem expostas de modo a responder às exigências do novo tempo. Cf. CARBONE, V. Il Concilio Vaticano II: luce per la Chiesa e per il mondo moderno. Disponível em: http://www.vatican. va/jubilee_2000/magazine/documents/ju_mag_01051997_p-21_it.html>. Acesso em: 14 jun 2012.

[5] SUSIN, L. C. Para conhecer Deus é necessário conhecer o homem. In: GONÇALVES, P. S. L. e BOMBONATTO, V. I. (orgs.). Concílio Vaticano II: análise e prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 371.

[6] A Nouvelle Théologie foi uma escola de pensamento na teologia católica, formada principalmente por teólogos franceses e alemães, por volta da década de 40, e marcada por três elementos fundamentais: volta às fontes (escriturísticas e patrísticas), diálogo com a cultura e a ciência modernas, e preocupação pastoral.

[7] KEHL, Medard. A Igreja: uma Eclesiologia Católica. São Paulo: Loyola, 1997.

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