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II – A VIRADA DA LUMEN GENTIUM

A mudança eclesiológica acionada na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja só pode ser entendida dentro da mudança histórica querida pelo Concílio Vaticano II. O novo paradigma da Lumen Gentium está na inserção, deliberadamente trabalhada, da imagem da Igreja como povo de Deus, como comunidade de crentes, em sua igualdade fundamental.

A elaboração deste documento central do Concílio Vaticano II foi marcada por momentos polêmicos. De início, foi rejeitado o esquema apresentado pela comissão preparatória, por parecer por demais assemelhado à eclesiologia que vigorava desde o Concílio de Trento, uma eclesiologia feita a partir da instituição e não a partir da vida, a partir da visibilidade jurídica e não a partir do mistério.

Os bispos do Concílio quiseram que a Igreja manifestasse mais explicitamente seu rosto divino, sua origem trinitária. Foi então elaborado o primeiro capítulo, sobre o mistério da Igreja. Nele são apresentados os seguintes temas: a) as relações da Igreja com cada uma das pessoas divinas; b) a relação da Igreja com o Reino de Deus, do qual ela é apresentada como sinal e instrumento; c) as imagens bíblicas da Igreja; d) a Igreja como Corpo de Cristo; e) a complexidade visível-invisível da Igreja.

É interessante observar que neste primeiro capítulo, em que se busca salientar a origem divina da Igreja, há uma significativa insistência na dimensão histórica da Igreja. O mistério da Igreja nunca é mostrado como algo sobrenatural, distante do mundo, desligado da história, mas sempre em relação íntima com a história. Na lógica da encarnação, a Igreja é uma só realidade complexa, humana e divina, visível e invisível, histórica e mistérica. Chave de leitura para todo este capítulo é a seguinte citação: “(A Igreja) é, por isso, mediante uma não medíocre analogia, comparada ao mistério do Verbo encarnado. Pois como a natureza humana, assumida indissoluvelmente unida a ele, serve ao Verbo divino como órgão vivo de salvação, semelhantemente o organismo social da Igreja serve ao Espírito de Cristo que o vivifica para o aumento do corpo” (LG 8). Vê-se que o mistério é visto dentro e a partir da história, como se pode conferir nos itens a seguir.

Nos números 2 a 4 de Lumen Gentium, a Igreja é apresentada como prefigurada na história do povo de Israel, inaugurada no ministério, na morte e na ressurreição de Jesus de Nazaré, enviada ao mundo pela força do Espírito Santo, sendo por ele hoje e sempre sustentada. Nestes itens, as três pessoas divinas são vistas em sua relação histórica com a vida concreta das pessoas e dos povos.

A relação da Igreja com o Reino (LG 5) tem por fundamento a pregação e o ministério de Jesus de Nazaré. A missão da Igreja deve continuar a missão de Jesus, na caridade, humildade e abnegação, no caminho da cruz.

Tampouco a imagem de Corpo de Cristo é vista em sua sobrenaturalidade mística, mas em sua inserção histórica. Ela é vista como sacramento enquanto e tão-somente está unida a Cristo, sendo este lembrado em sua encarnação histórica. Somos membros do Corpo de Cristo, enquanto “peregrinando ainda na terra, palmilhando em seus vestígios na tribulação e na perseguição, associamo-nos às suas dores como o corpo à Cabeça” (LG 7).

A Igreja deve comunicar Jesus Cristo, perseguido, amigo dos pobres, crucificado. Ela vive entre sombras, manifestando a plena luz (LG 8). Assim como Jesus Cristo foi enviado pelo Pai a evangelizar, também a Igreja tem como razão essencial de sua existência o chamado à salvação do sofredor.

A Igreja é entendida como mistério, não no sentido de fuga da realidade, mas, pelo contrário, como engajamento ainda maior e mais comprometido com a vida do povo. Em outras palavras, só se pode entender o mistério como encarnação de Deus no mundo, sendo a cruz de Jesus a maior prova do amor de Deus e da manifestação do seu poder.

Como se vê, o primeiro capítulo tem um corte profundamente histórico, ainda que seu conteúdo fosse o mistério da Igreja e sua origem divina. Desse modo, o primeiro capítulo prepara e introduz o capítulo central do documento, o capítulo segundo, sobre a Igreja como povo de Deus. É este capítulo segundo, que fala da Igreja como povo de Deus o ponto de partida para a interpretação e a recepção de toda a teologia e eclesiologia conciliar. Povo de Deus foi um tema propositadamente buscado e inserido no documento sobre a eclesiologia. Assim, este conceito de povo de Deus é a luz que serve para ler tanto o primeiro capítulo (o mistério da Igreja) como todos os seguintes, sobre a hierarquia (cap. III), o laicato (cap. IV), a santidade (cap. V), a vida religiosa (cap. VI), a caminhada da Igreja (cap. VII) e a missão de Maria na história da salvação (cap. VIII).

Há em Lumen Gentium uma proposta de mudança histórica no modo de se entender e viver a Igreja. Da imagem da Igreja como sociedade perfeita, em sua dimensão jurídica e institucional, passa-se para a imagem da Igreja como povo de Deus inserido na história.

Pe. Vitor Galdino Feller

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