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III – A LITURGIA, MOMENTO HISTÓRICO DA SALVAÇÃO

1. O conceito de história

A história humana é o lugar e o meio da salvação, uma vez que nela Deus se revela e age. A história humana está repleta das maravilhas do Senhor. “Louvemos, todos, o nome do Senhor, porque só o seu nome é excelso. Sua majestade transcende a terra e o céu” (Sl 146,13).  O ser humano acolhe a salvação não fora da história, mas na história. A salvação, portanto, não significa evasão da história, mas um modo peculiar de assumi-la. Nela dá-se a revelação de Deus.

Uma história simultaneamente linear, porque parte de um único ponto: Deus Criador; uma história unitária em que uma fase conduz necessariamente a outra; uma história marcada por forte dimensão escatológica: todas as fases tendem para uma consumação, um fim único, num contínuo processo ontológico absolutamente necessário, e que tem como protagonistas Deus, os anjos, e os homens. As etapas que constituem essa história sagrada coincidem com a história bíblica: o tempo das promessas, o tempo do cumprimento e da plenitude e o tempo da instauração definitiva do Reino de Deus.

2. A história da salvação

Em oposição ao evento mítico, encontra-se o acontecimento histórico. Jesus Cristo está no começo, no centro e no fim da história; nele se realiza e se modifica definitivamente a condição humana. Ele é “o desígnio salvador de Deus, o mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou” (Ef 3,9). O mistério guardado em segredo durante séculos (Rm 16,25), a sabedoria misteriosa e secreta que Deus predestinou antes de existir o tempo (1Cor 2,7), manifestado aos seus santos e aos gentios, Cristo, a esperança da glória (Cl 1,26-27). Ele realiza plenamente a vontade de Deus(Ef 1,9).

A revelação do mistério escondido em Deus através de uma sucessão de eventos salvíficos que, de modos e em tempos diferentes indicam sua realização já existente na eternidade de Deus, preparado no seio das nações pelo Espírito do Senhor, particularmente em Israel, encontra em Cristo plena realização (SC 6). “Sua humanidade, na unidade da pessoa do Verbo, foi o instrumento da nossa salvação. Pelo que, em Cristo, ocorreu a perfeita satisfação de nossa reconciliação e nos foi comunicada a plenitude do culto divino” (SC 5). Dessa forma, Deus foi plenamente glorificado e a humanidade foi inteiramente restaurada. Morrendo, Jesus destruiu nossa morte e, ressuscitando, recuperou nossa vida.

Por força dessa centralidade, Cristo é Deus que revela e o Deus revelado; revela o mistério e é o próprio mistério; é o caminho da revelação e a própria revelação; é causa e autor da revelação; o Deus que fala e o Deus do qual se fala; Cristo é a plenitude da revelação e a resposta perfeita que a humanidade dá à revelação. Nele culmina a revelação como ação, como economia, como mensagem e como encontro.[1]

Encontramos a realidade do mistério na cultura greco-romana. O mysterion determinava o culto prestado aos deuses, cujo reconhecimento era reservado aos que o praticavam. Eram regidos pela lei do arcano, do segredo. Na religião cristã o mistério designa a pessoa, a ação e a mensagem de Jesus Cristo. Deus, desde toda a eternidade, o constituiu Cabeça de toda a criatura. A história sagrada se divide em antes e depois de Cristo. Antes dele foi uma etapa de preparação; depois dele, uma continuidade de sua pessoa e missão, através da aliança Cristo-Igreja (Ef 5,32). Paulo faz referência ainda ao mistério do Evangelho (Ef 6,19), ao mistério da fé (1Tm 3,9), e ao mistério da piedade (1Tm 2,16). No tempo que transcorre entre a ascensão e a segunda vinda de Cristo, ele comunica seu mistério salvífico aos homens mediante sua Igreja.

3. Liturgia, celebração da história da salvação

Tanto na religião natural como na revelada existem sinais que estão em relação com momentos ou intervenções divinas na história humana. Além da intervenção divina, constituem elementos de diálogo entre Deus e os seres humanos. O sinal manifesta não só o poder, mas também o amor salvífico de Deus. “Esse diálogo acontece, todavia, numa linha histórica no sentido de que os sinais não são produto de invenção, mas são ambientados no tempo e no espaço e têm determinadas características (temporalidade e espacialidade dos sinais); O sinal serve, por isso, para historicizar a intervenção divina.[2]

“Compreender que toda a história sagrada é mistério de Cristo, que nessa história anterior a ele tudo tende a ele, mais precisamente à sua morte e ressurreição, e que depois dele tudo dele deriva; compreender que depois de sua morte e ressurreição não se deve esperar nada de radicalmente novo, mas que se vai apenas reproduzir nas criaturas, até o final dos tempos, o mistério do Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, contanto que esses  participem e se saciem na sua plenitude; compreender tudo isto é essencial para adentrar no mundo da liturgia”.[3]

Por conseguinte, a afirmação solene do Concílio: “Realmente, em tão grandiosa obra, pela qual Deus é perfeitamente glorificado e os homens santificados, Cristo sempre associa a si a Igreja, sua Esposa diletíssima, que invoca seu Senhor e por Ele presta culto ao eterno Pai. Com razão, pois, a liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros” (SC 7).

A presença de Cristo na liturgia abre a reflexão teológica do número sete do documento conciliar: “Cristo está sempre presente na sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas”. Em seguida, descreve: na pessoa do ministro; na celebração eucarística; nos demais sacramentos; na palavra; no irmão, na Igreja reunida (SC 7). Todas estas presenças são reais, ainda que se aplique à Eucaristia o termo real por excelência.[4]Entre a presença real de Jesus na Eucaristia e as outras presenças reais não existe diferença quando à presença de Cristo e à realidade dessa presença; existe diferença no que se refere ao modo como essas diversas presenças são reais.

A liturgia é, pois, toda orientada para a história da salvação, que é o mistério de Cristo em seus tempos, ritos e sinais. Cristo é o sinal-realidade; o Antigo Testamento, sinal profético; o tempo da Igreja, sinal da continuação efetiva do tempo de Cristo.“É um evento real, acontecido na história, mas é único: todos os outros eventos da história acontecem uma vez e depois passam, engolidos pelo passado. O mistério pascal de Cristo, ao contrário, não pode ficar somente no passado, já que, por sua morte, destruiu a morte, e tudo o que Cristo é, fez e sofreu por nós homens participa da eternidade divina e,   por isso, abraça todos os tempos e nele se mantém presente. O evento da cruz e ressurreição permanece e atrai tudo para a vida” (CIC 1085).

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert
Endereço do Autor:
Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041
88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com

[1] Cf. LATOURELLE, R. – Teologia da Revelação, São Paulo, Paulinas, 1972, pp. 483-485.
[2] Cf. MARSILI, S. – Sinais do Mistério de Cristo, São Paulo, Paulinas, 2010, pp. 73-74.
[3]Cf. VAGAGGINI, C. – O Sentido Teológico da Liturgia, São Paulo, Loyola, 2009, p. 36.
[4] Cf. Paulo VI – Mysterium Fidei, 41.

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