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IV – O MISTÉRIO DA IGREJA

A Lumen Gentium começa apresentando a Igreja como mistério. Desde o século XVI, após o Concílio de Trento, a vinha se configurando como instituição, uma sociedade tão perfeita como qualquer organização humana, com leis específicas sobre a pertença eclesial: a prática dos mesmos sacramentos, sobretudo o batismo e a eucaristia, a profissão da mesma fé, recitada no credo, e a obediência à mesma hierarquia, centrada na figura do papa. O cardeal Belarmino entendia a Igreja de modo jurídico e visível como uma sociedade perfeita como o reino da França ou a república de Veneza. No século XIX, o Concílio Vaticano I acentuou essa natureza institucional da Igreja, definindo o primado romano do papa e a infalibilidade do magistério papal.

Logo no início do Concílio Vaticano II, os padres conciliares rejeitaram o esquema elaborado pela comissão preparatória, baseado nessa eclesiologia tradicional, que insiste na natureza institucional, visível e jurídica da Igreja. Em vez disso preferiram voltar às fontes bíblicas e patrísticas, às grandes fontes da fé, para tirar desse tesouro a riqueza de uma antiga, mas sempre nova, concepção eclesiológica: a Igreja como mistério. Ela é sacramento da união dos homens com Deus e entre si.

Décadas mais tarde, em 2007, o Documento de Aparecida reflete a Lumen Gentium ao dizer que a Igreja é uma “comunidade missionária”. “A Igreja é comunhão no amor. Esta é a sua essência e o sinal através do qual é chamada a ser reconhecida como seguidora de Cristo e servidora da humanidade” (DAp 161). Fiel a Cristo e aos seres humanos, a Igreja deve tornar-se na prática aquilo que ela já é na sua essência. Ela é na terra o sinal que reflete a comunhão das pessoas divinas, é o ícone terreno da Trindade celeste. “O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja” (DAp 155). A Trindade é a origem, a forma e o destino da Igreja. Assim, a Igreja vem de Deus-Trindade, vive em Deus-Trindade e vai para Deus-Trindade. Em Deus Trindade, somos unidade, mas não uniformidade; somos diversidade, mas não divisão; somos comunhão, mas não confusão. A Santíssima Trindade é a perfeita comunidade missionária, modelo para todas as comunidades e paróquias e dioceses, para a Igreja em todo o mundo.

A Igreja é do Pai. Ao criar o mundo num transbordamento de amor, ao escolher Abraão para constituir uma nova humanidade marcada pela superação do pecado e pela força da fé, ao constituir Israel como o povo de sua predileção, Deus Pai foi preparando a formação da Igreja. A Igreja é do Filho. Pela sua encarnação, pelo seu ministério público centrado no anúncio do Reino de Deus, pela sua morte e ressurreição, Jesus constituiu um povo. O movimento de Jesus, formado pelos apóstolos e pelos discípulos e discípulas que o seguiram até Jerusalém e que, superando o escândalo da sua morte, passaram a anunciar a alegria de sua ressurreição, é o germe da Igreja. A Igreja é do Espírito Santo. A terceira pessoa divina, o amor que une o Pai e o Filho, é quem garante a unidade na diversidade das vocações e ministérios, teologias e espiritualidades, culturas e povos.

No cerne da Igreja habitam as três pessoas divinas. Ao redor delas, como que em uma ciranda trinitária, convivem todos os fiéis em íntima comunhão. Uma comunhão que se abre a todos os povos e nações, num convite amoroso para que todos façam a experiência do amor incondicional do Pai, revelado na face humana de Jesus de Nazaré e introjetado no coração de todos os crentes, agora chamados filhos adotivos de Deus, membros do povo santo de Deus e do Corpo de Cristo, templos do Espírito Santo.

A dimensão mistérica da Igreja não anula a dimensão institucional, mas a precede e supera. Assim, a Igreja equilibra-se por essa dupla referência: o mistério e a história, a dimensão espiritual e a dimensão institucional, o místico e o jurídico. Isso significa que o mistério da Igreja, fundado na Trindade, se encarna na história. Não é um mistério abstrato, descolado do concreto e do cotidiano da história. Em comparação com o mistério da encarnação, em que a pessoa divina do Verbo assume a natureza humana em Jesus de Nazaré, também a Igreja assume realidades materiais – hierarquia, leis, divisões territoriais etc. – para poder anunciar e realizar no mundo o Reino de Deus.

Essa dimensão trinitária da Igreja tem como consequência a recuperação da consciência bíblico-patrística da Igreja como comunhão. A Igreja é, antes de tudo, comunhão dos fiéis com Deus, todos numa relação de verticalidade com o absoluto divino. A partir disso, dá-se a comunhão dos fiéis entre si, a comunhão nos bens espirituais da Palavra e dos sacramentos e a comunhão das dioceses (chamadas no Concílio de “igrejas particulares”). Essa comunhão se amplia na busca da unidade com as igrejas cristãs e do diálogo com as religiões não cristãs. E, mais ainda, na consciência da presença no mundo como espaço do anúncio e da realização do Reino de Deus sobre a terra.

Pe. Vitor Galdino Feller

 

 

 

 

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