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IV – LITURGIA, CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO PASCAL

A redenção dos homens tem início no momento da encarnação do Verbo e se completa no momento de sua morte-ressurreição-ascensão. Este único e grande evento salvífico encontra-se no centro da história da salvação e, portanto, no coração da liturgia cristã. A Páscoa de Israel é prefiguração, anúncio, preparação e antecipação da Páscoa definitiva de Cristo e dos cristãos, celebrada na liturgia da Igreja, até que ele venha e faça novas todas as coisas (Ap 21,5). Em Cristo, a humanidade entrou verdadeiramente naquela libertação e salvação que Deus, desde toda a eternidade, pensava e queria para todos os homens. Não mais uma Páscoa de promessa, mas sua plena realização [1].

Em Israel, o evento pascal transfere-se para o rito no contexto da Ceia pascal e dos sacrifícios no Templo. A Sacrosanctum Concilium, ao falar da realização do mistério pascal de Cristo, através de sinais sensíveis rituais, refere-se à liturgia: Cristo enviou os apóstolos a anunciarem a salvação através do anúncio da palavra, da fração do pão, da comunhão fraterna e da fidelidade aos ensinamentos dos apóstolos. A vivência sacramental constitui elemento central da liturgia. Os sacramentos de Cristo, celebrados pela Igreja, não são, portanto, ritos vazios. Pelo contrário: são sinais eficazes (palavras, gestos) da realidade pascal da verdadeira salvação operada por Cristo. “A realização desta salvação torna-se eficaz para os homens no momento em que Cristo será glorificado, isto é, no momento, que por ser aquele último e conclusivo da complexa salvação pascal, por antonomásia e por excelência se denomina Páscoa [2].

O rito, porém, por si só, não abrange a totalidade do mistério de Cristo. “O rito, um dos elementos centrais da liturgia, não é tudo. Dentro ou através de uma ação litúrgica se encontra o mistério e a vida, por detrás do que aparece se encontra o ser, no significante ou formas externas se manifestam o conteúdo e o sentido interno”[3][3]. É obra de Deus e do homem. O âmbito mais significativo do encontro e do diálogo entre Deus e o homem, na comunidade e através da comunidade.  A ação ritual não constitui somente o exercício de um direito ou dever; é uma experiência de comunhão, não só uma experiência pública ou privada; um tempo festivo que nos foi doado, não apenas um tempo livre ou dedicado ao trabalho; fonte e cume e não só uma função e um meio[4].

Por detrás dessa eficácia dos sinais litúrgicos de instituição divina está especialmente a doutrina do opus operatum. As ações litúrgicas são ações de Cristo em sua Igreja. Segundo Odo Casel, na ação cúltica sacramental torna-se objetivamente presente não somente o efeito das ações histórico-salvíficas de Cristo, especialmente da paixão, ou seja, torna-se objetivamente presente não só a graça, mas também a mesma ação redentora, naquilo que tem de essencial, na sua substância.[5] Em relação aos sinais litúrgicos de instituição humana,temos, sobretudo, o ex opere operantis ecclesiae, que está relacionado à dignidade moral, ao mérito e à santidade de vida de quem recebe esses ritos e de quem os preside. 

4.  A liturgia como ação ritual

A liturgia não se resume, pois, a um conjunto de ritos. É igualmente falso afirmar que a liturgia cristã, para ser autenticamente tal, deve excluir qualquer forma de rito. O ritualismo, que dá valor exagerado ao rito ou que o torna vazio, este sim, deve ser excluído. O rito, em si, traduz aquela exigência natural do homem de servir‑se de sinais, palavras e gestos para exprimir os próprios sentimentos e atitudes interiores, sob o plano da relação, tanto humana, quanto divina. Os sinais litúrgicos expressam, portanto, o relacionamento que o ser humano procura estabelecer com Deus.

A relação existente entre Sagrada Escritura e liturgia faz entender que o rito assume outra conotação, própria da religião revelada e, em particular, do cristianismo, e que consiste no ser sinal daquela realidade especial e divina que é Cristo. Cristo, de fato, é o sinal dado por Deus (Jo 6,28). Em dependência desse sinal sacramental que é Cristo, é preciso entender, igualmente, os sinais rituais do Novo Testamento. São sinais objetivamente reais, no sentido de que atuam a mesma realidade do acontecimento que refletem.

 Por esse motivo, a liturgia se distingue de qualquer outra forma de culto existente nas outras religiões naturais. Há uma presença da ação divina sob a forma ritual. A liturgia não é um culto qualquer, mas único, porque nela o culto realiza a sua verdadeira natureza. A liturgia cristã constitui um regime de sinais que, inserindo no mistério de Cristo cada um dos seres humanos, faz deles adoradores em espírito e verdade. A liturgia não é, antes de tudo, ação pela qual os homens se unem a Deus, mas é, em primeiro lugar, ação pela qual Deus, em Cristo, vem ao encontro dos homens.

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert

Endereço do Autor:
Faculdade Católica de Santa Catarina – Facasc – Itesc
Caixa Postal 5041 – 88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com


[1] Cf. MARSILI, S. – Liturgia, momento histórico da salvação, São Paulo, Paulinas, 1987, p. 118.

[2] Cf. Ibidem, p. 121.

[3] Cf. BOROBIO, D. – Celebrar para viver, São Paulo, Loyola, 2009, p. 17.

[4] Cf. GRILLO, – A. Liturgia, momento histórico da salvação na SC e nos demais documentos do Concílio, Exposição no Seminário Nacional de Liturgia, Itaici, SP, 2012.

[5] Cf. VAGAGGINI, C. – Ibidem, p. 112.

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