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V – LITURGIA, EXERCÍCIO DO SACERDÓCIO DE CRISTO

1. O verdadeiro culto no Corpo de Cristo

 Ao expulsar os vendilhões do Templo, Jesus se apresenta como o verdadeiro Templo de Deus: em seu Corpo, morto e ressuscitado, se oferecerá o único e autêntico culto agradável ao Pai. A comunidade cristã primitiva, refletindo sobre o sinal do templo anunciado por Cristo (Jo 2,21), para a qual o Corpo de Jesus é o templo de Deus, adquirirá logo plena consciência de que Deus não pode habitar num templo feito por mãos humanas (At 7,48).

Os cristãos, pela sua união com Cristo, vivificado pelo Espírito (1Cor 15,45), tornaram-se, também eles, espírito no seu Corpo (1Cor 16-17); transformam-se, assim, em templo espiritual como o corpo humano de Cristo. Edificados sobre Cristo, pedra angular rejeitada pelos construtores (Lc 20,17), os cristãos oferecem seus corpos como vítima viva, santa e agradável a Deus, como seu culto espiritual (1Pd 2,5).

 “Cristo Senhor, Pontífice tomado dentre os homens (Hb 5,1-5), fez do novo povo um reino de sacerdotes para o Pai (Ap 1,6). Pois os batizados pela regeneração e unção do Espírito Santo são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo, para que,  por todas as obras do homem cristão, ofereçam sacrifícios espirituais e anunciem os poderes daquele que das trevas  os chamou à sua admirável luz” (LG 10). Os fiéis são, pois, delegados ao culto da religião cristã. Participando do sacrifício eucarístico, fonte e ápice de toda a vida cristã, oferecem a Deus a Vítima Divina e com ela a si mesmos (LG 11). Por isso, o Concílio insiste em que os fiéis participem das ações litúrgicas consciente, piedosa e ativamente, e aprendam a oferecer a si próprios oferecendo a hóstia imaculada (SC 48).

Liturgia é o culto da Igreja. A Encíclica Mediator Dei, de Pio XII, já definia a liturgia como ação sacerdotal de Cristo continuada pela Igreja, culto do Corpo Místico (MD 17). A Sacrosanctum Concilium afirma que “as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é o sacramento da unidade, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a orientação dos bispos” (SC 26). Essas ações pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no e o afetam. Cabe à hierarquia coordenar, animar, promover e orientar a ação litúrgica como agente particular dessa mesma ação. A liturgia, pela qual “se exerce a obra da nossa redenção, constitui o modo mais excelente para que os fiéis exprimam em suas vidas e aos outros manifestem o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja” (SC 2). Os fiéis, no entanto, ainda não são considerados sujeitos da liturgia. Não está ainda suficientemente clara a noção de Sacerdócio dos Fiéis e o próprio conceito é ainda prevalentemente exterior. Ou seja: a liturgia manifesta sua realidade, seu valor, pelo fato de ser ação do sacerdócio hierárquico externo e visível e não pelo fato de ser ação dos fiéis, membros de Cristo Sacerdote. Por conseguinte, a liturgia é ainda dominada excessivamente pelo aspecto ritual exterior e é vista quase que exclusivamente como ação da hierarquia. 

2. Do Corpo de Cristo ao Corpo de Cristo-Igreja 

Cristo institui a sua Igreja (Mt 16,18). Edificada com pedras vivas, é estabelecida como um sacerdócio santo para oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo, e sobre elese constrói (1Pd 2,5).  A Igreja é uma comunidade não só em nível sociológico, mas, sobretudo, cultual. Em Cristo, o povo de Deus do Novo Testamento é constituído uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus (1Pd 2, 9).

“A Igreja, pois, ainda que no seu conteúdo real se identifique com o povo de Deus,contudo vem a indicar, de maneira direta, o momento cultual dele, ou seja, a Igreja existe no tempo e no lugar em que o povo de Deus responde à chamada, que o reúne de fato e em concreto em torno de Deus (culto). Enfim, a Igreja é a projeção teológico-cultual do povo de Deus, considerado como reino de sacerdotes (Ex 19,6), como sacerdotes de Deus (Is 61,6), isto é, como povo destinado ao culto de Deus até ser essencialmente por isso qualificado”.[1]

A Encíclica Mediator Dei define a liturgia como adoração pública que o nosso Redentor, como Cabeça da Igreja, oferece ao Pai; como a adoração que a comunidade dos fiéis rende ao seu Fundador e, através dele, ao Pai Celeste. Portanto, uma adoração prestada pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros (n.17).  A Constituição Conciliar insere elementos mais precisos; inclui o conceito fundamental da presença de Cristo no Sacrifício da Missa, nos sacramentos, na palavra e no ofício divino: “Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que, quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala, quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente, quando a Igreja ora e salmodia”. A finalidade última da liturgia é a perfeita glorificação de Deus e a santificação daqueles que a celebram (SC 7).

Por outro lado, tornar-se Corpo de Cristo não deve ser entendido unicamente em nível moral. O ser humano foi criado à imagem de Cristo (Cl 1,15) e, por isso, somente pode realizar-se em Cristo (Ef 1,25; 4,15). Isso acontece exatamente através do processo sacramental, particularmente pela participação na Eucaristia. Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis que constituem um só corpo em Cristo (1Cor 10,17). A Igreja faz-se Corpo de Cristo, porque se une à oferta sacramental do Senhor. O Batismo nos insere no Corpo de Cristo e a Eucaristia nos identifica com esse mesmo Corpo. Afirma o Papa João Paulo II: “A incorporação em Cristo, realizada pelo Batismo, renova-se e consolida-se continuamente através da participação no sacrifício eucarístico, sobretudo na sua forma plena que é a comunhão sacramental. Podemos dizer não só que cada um de nós recebe Cristo, mas também que Cristo recebe cada um de nós”.[2]

A liturgia é ação do Cristo todo (Christus totus). A Igreja celeste não cessa de clamar dia e noite: “Santo, Santo, Santo, é o Senhor, Deus Todo-poderoso, Aquele-que-era, Aquele-que-é e Aquele-que-vem” (Ap 4,8). A multidão dos salvos o adoram ao redor do trono (Ap 7,11). Os eleitos cantam um cântico novo (Ap 14,3). Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual peregrinamos (SC 8).

  A Igreja é, de fato, o momento em que acontece a assembleia cristã, e isso ocorre precisamente na assembleia da Igreja local. A Igreja se define, portanto, como comunidade litúrgica, antes de tudo ao nível local (IGMR 59; 74). A Igreja local realiza o evento da Igreja universal. A celebração eucarística tem como caráter essencial o fato de ser determinada localmente, não podendo ser realizada senão em uma comunidade reunida em um lugar determinado. A Igreja é destinada, por sua própria natureza, a concretizar‑se e a atuar‑se em um lugar determinado. Sendo a Eucaristia uma celebração local, ela não só acontece na Igreja, mas a própria Igreja se torna um corpo visível, no sentido mais pleno do termo, somente na celebração local do sacrifício.

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert

Endereço do Autor:
Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041 | CEP 88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com


[1] Cf. MARSILI, S. Ibidem, pp. 134-135.

[2] Cf. JOÃO PAULO II, Ecclesia De Eucharistia, 22.

 

 

 

 

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