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II – “AGGIORNAMENTO” – RENOVAÇÃO DA VIDA E DISCIPLINA DOS INSTITUTOS

Renovação, adaptação, atualização – eis as palavras-chave que permeiam todo o Decreto Perfectae Caritatis.  A Vida Religiosa foi sempre reconhecida e valorizada na vida da Igreja como uma forma eminente de viver o seguimento de Cristo na radicalidade do Evangelho. Em todos os tempos, o ideal proposto por essa vocação específica tem atraído homens e mulheres, de todas as raças e categorias sociais, que se congregam em ordens e institutos, com denominações e regras de vida próprias.

Por que Renovação?

O que os Padres conciliares viram ao debruçar-se também sobre esse segmento da vida da Igreja não foi diferente de tantos outros aspectos tratados nos vários documentos que foram nascendo nas sessões do Concílio. A necessidade, em se tratando de “Vida Religiosa”, era a mesma que João XXIII sentira em relação a toda a Igreja: a necessidade de uma profunda renovação, de “abrir janelas”, de fazer entrar um “vento novo”. Era a razão de ser do Concílio.

Ao longo dos séculos, e ao sabor dos ventos de cada época da história, também na Vida Religiosa haviam sido fechadas muitas janelas, e não só por conta dos altos muros dos conventos e mosteiros; muitas práticas externas e aparências exóticas se haviam cristalizado em constituições e diretórios, que eram tidos por tão – ou mais – sagrados quanto a Bíblia, cujo uso e conhecimento, aliás, ainda nem era facultado ao povo cristão; muitas observâncias e hábitos, dentro e fora da “clausura”, eram vistos e entendidos como o verdadeiro sinal sagrado da identidade religiosa. Assim, o frescor original do encantamento por esse caminho de seguimento do Mestre – o essencial da consagração – ficara encoberto, muitas vezes, por um sem número de coberturas acidentais, sacramentadas pelo uso ao longo do caminho.

O que diz o Concílio?

Logo de saída, após uma introdução sobre a natureza e a constatação da presença dessa forma de vida no seio da Igreja, o documento faz duas recomendações centrais no sentido de levar os institutos a concretizarem a renovação pedida pelo Concílio:

Retorno às fontes

Para reavivar o entusiasmo inicial da opção pela vida consagrada, ou mesmo, quando preciso, despertar do torpor da rotina dos usos e costumes, para “voltar ao primeiro amor”, era preciso:

– voltar às fontes de toda vida cristã, buscar no Evangelho a regra suprema, a norma última de todo e qualquer instituto; participar da vida da Igreja, assumir e favorecer, conforme a própria índole, as iniciativas e intenções da Igreja, sobretudo em matéria bíblica, litúrgica e pastoral;

– voltar à inspiração primitiva e original de cada fundação, rever, com renovada paixão, o que fora a intenção e inspiração de cada fundador ou fundadora. Rever – para conhecer e amar, na raiz, na origem; e rever – para adaptar às novas condições dos tempos. As perguntas seriam – e foram, no tempo privilegiado do pós-Concílio: Quem foi o fundador, a fundadora? O que quiseram no seu tempo? O que quereriam hoje, no espaço de tempo e lugar em que agora vivemos? O convite a essa volta no tempo era para privilegiar, sim, a fidelidade à inspiração original, mas uma fidelidade histórica, de quem sabe que os novos tempos trazem consigo novas necessidades e novos apelos. Foi um tempo de acentuada pesquisa e reflexão sobre o próprio carisma, termo também aprendido no vocabulário conciliar, e sobre a própria missão na Igreja e na sociedade.

Revisão das constituições

Para que a renovação e adaptação não ficasse no mero querer, sem fazer, o documento fala de “critérios práticos” para rever, em primeiro lugar, a própria organização do governo dos institutos. Sem mudanças nas normas e leis que regiam a vida no cotidiano, não poderia haver qualquer outra mudança significativa. Nesse sentido, a recomendação do Concílio foi muito clara e mesmo exigente: “as constituições, os diretórios, os livros de usos, de orações e de cerimônias, e outros códigos da mesma ordem, sejam revistos e adaptados […], suprimindo-se as prescrições obsoletas”. A própria formulação, incisiva e minuciosa, reconhece que há, sim, em toda a normatização da vida nos institutos, o que rever e adaptar e suprimir. Para cumprir a exigência do Concílio, foram, em consequência, realizadas assembleias gerais, capítulos em linguagem canônica, nos prazos estabelecidos, para elaborar novas constituições, que poderiam ser ad experimentum, por um certo tempo, para que as novas orientações fossem assimiladas e posteriormente revisadas, desembocando numa redação definitivaa ser submetida às autoridades competentes na cúria romana para a devida aprovação.

Ter vivido, como religioso/religiosa, a época do Concílio e, especialmente, do pós-Concílio, será hoje e sempre uma lembrança indelével. Cinquenta anos atrás, quando se estava apenas sabendo que ia acontecer um Concílio – e as informações e notícias ainda eram cinquenta anos mais lentas e parcas -, não se podia prever o que ele significaria para toda uma Igreja. E o que um documento como a Perfectae Caritatis poderia significar para toda uma estrutura de Vida Religiosa Consagrada.

Irmã Cléa Fuck
E-mail: 
ir.clea@gmail.com

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