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VI – SACERDÓCIO MINISTERIAL E COMUM DOS FIÉIS

 1. A Igreja como novo povo de Deus

Na Igreja primitiva o conceito povo de Deus prevaleceu sobres as demais designações; em seguida, cede espaço a outras concepções. A designação de povo de Deus, de um lado, situa a Igreja no plano de sucessão histórica da obra da Redenção de Deus como a comunidade final e definitiva das alianças de Deus com o seu povo; de outro, a designação povo de Deus visualiza a Igreja como povo peregrino em busca da Pátria definitiva.

As visões eclesiológicas se sucedem, e o conceito de povo de Deus vai perdendo espaço a partir da Idade Média.  “A conceituação da Igreja como povo de Deus implica uma interpretação histórica da obra da Redenção. Ora, o método escolástico medieval não possuía uma visão adequada par a interpretação histórica. Não é, pois, de admirar que na sistemática teológica da Idade Média pouco avulta a designação da Igreja como povo de Deus” [1]. No século XVI, como a Reforma Protestante punha em relevo este conceito, na Idade Moderna na Igreja Católica manifesta-se a tendência de conceituar a Igreja como sociedade perfeita constituída no mundo.

No Concílio Vaticano I a doutrina sobre a Igreja orientava-se exclusivamente pela consideração da Igreja como Corpo Místico de Cristo. A eclesiologia do Vaticano II intui que não é possível ater-se a um único conceito ou uma única imagem da Igreja, ainda que tenha posto em relevo a denominação de povo de deus (LG 8). Lembra, também, que a Igreja não é apenas um povo, mas o povo de Deus. Nesse novo enfoque, põe-se em evidência primeiramente a unidade, a comunidade, até mesmo, a igualdade fundamental no seio da Igreja hierarquicamente constituída. Em segundo lugar, a sua dimensão histórica na qual Cristo a inseriu como seu povo.

2. O sacerdócio comum dos fiéis.

O Concílio afirma que esse povo é primeiramente um povo sacerdotal e esse sacerdócio é exercido  em duas dimensões. “O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas em grau” (LG 1º). “É um sacerdócio    universal,  porque é comum a todos os fiéis. Seria um erro chama-lo sacerdócio dos leigos. Ele não é privativo dos leigos, pois os fiéis que recebem o sacramento da Ordem continuam revestidos deste sacerdócio primordial. É condição indispensável a toda consagração ulterior. É um sacerdócio de base. Outra qualquer participação no sacerdócio de Cristo não é senão o desenvolvimento ulterior desta incorporação fundamental”[2].

Em relação ao sacerdócio comum dos fiéis, a Encíclica Mediator Dei deu um passo importante, embora ainda inicial: “É necessário, pois, veneráveis irmãos, que todos os fiéis tenham por seu principal dever e suma dignidade participar do santo sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor que os ponha em contato íntimo com o sumo sacerdote, como diz o Apóstolo: ‘Tende em vós os mesmos sentimentos que Jesus Cristo experimentou’ (Fl 2,5), oferecendo com ele e por ele, santificando-se com ele” (MD 73). Tudo isso consta da fé verdadeira; mas deve-se, além disso, afirmar que também os fiéis oferecem a vítima divina, sob um aspecto diverso (MD 77).

Ao estabelecer a relação entre o sacerdócio comum e o ministerial, a Encíclica enfatiza: “Dessa oblação propriamente dita os fiéis participam do modo que lhes é possível e por um duplo motivo: porque oferecem o sacrifício não somente pelas mãos do sacerdote, mas, de certo modo ainda, junto com ele; e ainda porque, com essa participação, também a oferta feita pelo povo pertence ao culto litúrgico. Que os fiéis oferecem o sacrifício, por meio do sacerdote, é claro, pois o ministro do altar age na pessoa de Cristo enquanto Cabeça, que oferece em nome de todos os membros; pelo que, em bom direito, se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, realiza a oblação da vítima” (MD 83).

O Concílio Vaticano II aborda o tema com maior abrangência. O povo cristão, enquanto sacerdócio régio, indica o direito e o dever de participar da liturgia em virtude do Batismo (SC 14). Toda a Igreja constitui uma comunidade sacerdotal, porque todos os discípulos de Cristo, estabelecidos como o povo de Deus, foram constituídos sacerdotes (LG 3). Os cristãos formam um sacerdócio régio, enquanto participam da missão à qual Jesus foi consagrado (ungido) pelo Espírito Santo na sua humanidade (PO 2).

O sacerdócio está, pois, presente em cada um dos fiéis cristãos em virtude de sua inserção em Cristo pelo Batismo.  Contudo, se lhes aplica o título de povo sacerdotal e de comunidade sacerdotal somente quando estão formados e realizados como povo sacerdotal, em virtude do dinamismo litúrgico, por aquele que, como cabeça sacerdotal (ministro ordenado), preside essa comunidade sacerdotal.

Trata-se de um sacerdócio comum, universal, de todos os cristãos, como vimos (os cristãos leigos, os religiosos e o clero). Todos formam o único povo de Deus.  O sacerdócio comum e o ministerial ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem não apenas por grau, mas por natureza (LG 10). Essa diferença essencial provém do sacramento da Ordem e de seu caráter. Por isso, afirma-se que o ministro ordenado age in persona Christi e não in persona fidelium. O ministério ordenado não substitui o sacerdócio dos fiéis, mas o preside ministerialmente na celebração eucarística.

Essa distinção e, simultaneamente, reciprocidade, pode ser sintetizada nesta afirmação: “O exercício do sacerdócio ministerial é sempre orientado  para o sacerdócio universal do povo de Deus. O primeiro é essencialmente relativo ao segundo. Este constitui, de certo modo, o objeto daquele, seu campo de aplicação. O sacerdócio ministerial é um serviço, um ministério de que se serve Cristo para por à disposição dos seus discípulos a força sobrenatural, a instrução, a formação, o apoio e a direção de que necessitam para viverem a sua fé e cumprirem a sua missão. Mas, por outro lado, o sacerdócio universal é, também ele, orientado essencialmente para o sacerdócio ministerial. Sem a distribuição das graças, a pregação da palavra e a direção pastoral, asseguradas pela hierarquia, os membros do sacerdócio universal ver-se-iam privados da competência e do socorro que Cristo lhes quer oferecer pelo Espírito Santo” [3].

O sacrifício dos cristãos consiste em se tornarem um só corpoem Cristo. Este é o ato de culto que cada cristão, consagrado pelo Batismo, oferece continuamente a Deus com a santidade de vida. Este ato de culto plenifica-se na liturgia sacramental, particularmente na Eucaristia. “Os fiéis, na missa, em virtude do seu caráter batismal, oferecem um sacrifício em regime cristão, e assim exercitam um sacerdócio em regime cristão que, com respeito aos conceitos acima definidos, é tal não equivocamente, nem só metaforicamente, mas realmente. Isso consiste propriamente no fato de que oferecem como seu próprio sacrifício, incluindo, portanto, aí a oferta de si mesmos até a destruição da própria vida, se assim aprouver a Deus, o sacrifício que Cristo oferece por meio do sacerdócio hierárquico”. [4]

Visando a essa melhor participação, a Introdução Geral sobre o Missal Romano indica vários meios: o sacerdócio régio dos fiéis, cujo sacrifício espiritual atinge plena realização pelo ministério dos presbíteros, em união com o sacrifício de Cristo, único Mediador (n. 5); a comunhão sob duas espécies como oportunidade para se compreender melhor o mistério de que os fiéis participam (n. 14); a aproximação dos fiéis da sagrada liturgia (n. 15). Visando a essa participação plena, é necessário investir na formação e na educação dos fiéis.

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert

Endereço do Autor: 

Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC | ITESC
Caixa Postal 5041
CEP 8040-970 – Florianópolis – SC
E- mail:
 goedertvalter@hotmail.com


[1] Cf. SEMMELROTH, O., A Igreja, o novo Povo de Deus, in Baraúna, G. (org), A Igreja do Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1965, p. 474.

[2] Cf. DE SMEDT, E.J.O sacerdócio dos fiéis, in Baraúna, G.  (org), Petrópolis, Vozes, 1965, p. 487.,

[3] Cf. DE SMEDT, E.J. ,Ibidem, pp. 488-489.

[4] Cf. VAGAGGINI, C., Ibidem, p. 152.

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