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II – A VIRADA ECLESIOLÓGICA E OS LEIGOS NA LUMEN GENTIUM

Decreto Apostolicam Actuositatem – O Apostolado dos Leigos

No artigo anterior, tivemos a oportunidade de apresentar, em breves linhas, o contexto pré-conciliar, especialmente no que diz respeito à maior participação dos leigos na vida cotidiana da Igreja. Nesse sentido, a menção a importantes movimentos que antecederam o Vaticano II, como a Ação Católica, decisiva que foi para a redefinição do papel do laicato, bem como tendo ela desenvolvido iniciativas como o método de reflexão “ver-julgar-agir”, adotado posteriormente no Concílio [1].

Nessa linha, cabe ainda abordar o espírito eclesiológico do Concílio, marcado por aquilo que Medard Kehl chamou de virada copernicana na vida da Igreja [2]. Copérnico, no início do século XVI, ainda que saibamos hoje que estivesse equivocado quanto ao heliocentrismo, contribuiu sobremaneira para a humanidade ao promover uma virada na tradicional cosmovisão geocêntrica, passo importante para a também virada que naquele período da história se deu do medievo para a modernidade.

Na vida da Igreja, contudo, sabemos que esse diálogo com a cultura moderna foi tardio, dando-se mais no início do século XX, e tomando forma justamente no Concílio Vaticano II. A virada copernicana na eclesiologia, pois, trouxe maior ênfase ao “ser” da Igreja enquanto mistério e enquanto Povo de Deus, antes de enquanto hierarquia, o que se pode notar pela própria ordem dos capítulos da Lumen Gentium [3], Constituição Dogmática sobre ela.

Assim, na lógica do aggiornamento, tratou-se de um Concílio sobre a identidade da Igreja, isto é, sobre o seu “ser” e a sua “missão”. Por isso, é entendimento comum o de que são dois os grandes eixos do Vaticano II, quais sejam o da Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja (mais focado no “ser; mais eclesiológico) e o da Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo atual (mais focado na “missão”; mais pastoral).

É inegável, portanto, que essa nova concepção da Igreja quanto a si mesma abriu um espaço novo para a compreensão do papel dos leigos nas atividades dela própria. Tanto a consagração batismal, como o sacerdócio comum do povo de Deus, impelem todos os fiéis a serem hóstias vivas a Deus e em favor do Seu Reino [4]. Assim, apesar de essencialmente diferentes, clero e laicato ordenam-se um para o outro e participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo [5].

A mesma Lumen Gentium, então, vem, antes do Decreto Apostolicam Actuositatem (nosso foco nesta sequência de artigos), definir como a Igreja passa a compreender o laicato e a sua missão dentro e para fora dela. No capítulo quarto dessa Constituição, o Concílio fala sobre os leigos na Igreja, sua natureza e missão, sua dignidade no povo de Deus, seu apostolado, suas funções sacerdotal, profética e régia, suas relações com a hierarquia e o fato de serem a alma do mundo.

Diz a Lumen Gentium, quanto à natureza do laicato: “por leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja se no mundo” [6].

Sobre a missão dos leigos, afirmou o Concílio que “compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus”. Os leigos “vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência”. Assim, “são chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de tudo pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade” [7].

Quanto ao apostolado dos leigos, dispõe a Lumen Gentium que o mesmo “é participação na própria missão salvadora da Igreja, e para ele todos são destinados pelo Senhor, por meio do Batismo e da Confirmação”. Da mesma forma, propõe o Concílio que “os leigos são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e ativa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra. Deste modo, todo e qualquer leigo, pelos dons que lhe foram concedidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da missão da própria Igreja, ‘segundo a medida concedida por Cristo’ (Ef. 4,7)” [8].

Por fim, após tantas outras significativas afirmações sobre o laicato, que aqui não temos como abordar pormenorizadamente (dado o foco no Decreto Apostolicam Actuositatem) [9], diz a Lumen Gentium, citando São João Crisóstomo (“boca de ouro”; grande orador da Patrística), que “os cristãos devem ser no mundo aquilo que a alma é no corpo” [10], ou seja, devem os leigos vivificar o mundo (dar-lhe vida, e vida em abundância) pelo seu apostolado.

 Klaus da Silva Raupp
E-mail: ksraupp@matrix.com.br


  • [1] Esse método foi pela primeira vez assumido pelo magistério eclesial na Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Tornou-se, posteriormente, um método típico da tradição católica latino-americana e da teologia da libertação. A título ilustrativo: na Gaudium et Spes, o ‘ver’ se situa na introdução, o ‘julgar’ na primeira parte e o ‘agir’ na segunda e última parte do documento.
  • [2] KEHL, Medard. A Igreja: uma Eclesiologia Católica. São Paulo: Loyola, 1997.
  • [3] Não nos parece por acaso, aos padres conciliares, que, numa Constituição Dogmática sobre a Igreja, as definições conciliares sobre o mistério que a Igreja é (capítulo primeiro) e sobre o povo de Deus (capítulo segundo) precedessem as definições sobre sua constituição hierárquica (capítulo terceiro).
  • [4] Cf. Lumen Gentium, n. 10.
  • [5] Cf. Lumen Gentium, loc. cit..
  • [6] Cf. Lumen Gentium, n. 31.
  • [7] Cf. Lumen Gentium, loc. cit..
  • [8] Cf. Lumen Gentium, n. 33.
  • [9] Mesmo esta sequência de artigos tendo seu foco no Decreto Apostolicam Actuositatem, não poderíamos nos furtar, nessas duas abordagens iniciais, de fazer menção ao contexto pré-conciliar que permitiu a maior participação dos leigos na vida da Igreja, bem com à Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja e a virada eclesiológica que nela se faz representar de modo claro, e em especial às suas definições sobre o laicato.
  • [10] Cf. Lumen Gentium, n. 38.

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