Deixe um comentário

IX – O MISTÉRIO EUCARÍSTICO

Evidentemente, não se deseja desenvolver aqui uma visão completa sobre a eucaristia. Há muitos documentos oficiais da Igreja e inúmeras obras escritas por renomados teólogos que abordam com maestria este tema. Temos por objetivo comentar alguns aspectos acentuados pela Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II: visão conjunta da eucarista; memorial do mistério pascal de Cristo; equilíbrio entre palavra e sacramento; o protagonismo do mistério eucarístico.

1. O mistério eucarístico

Primeiramente o texto conciliar une fortemente as duas dimensões fundamentais da eucaristia: ceia e sacrifício. “O nosso Salvador instituiu na Última Ceia, na noite em que foi entregue, o sacrifício eucarístico do seu corpo e do seu sangue para perpetuar no decorrer dos séculos, até ele voltar, o sacrifício da cruz” (SC 47). A eucaristia foi instituída no contexto da ceia pascal, uma refeição de aliança. Assumiu também uma dimensão de aliança sacrificial: corpo que será entregue… sangue que será derramado. Como pano de fundo temos a aliança do Sinai (Ex 24), a aliança presidida por Josué (Js 24), a aliança consolidada por Esdras e Neemias no retorno do cativeiro (Ne 9).

Afirma o Catecismo da Igreja Católica: “Ao celebrar a Última Ceia com os apóstolos durante a refeição pascal, Jesus deu seu sentido definitivo à páscoa judaica. Com efeito, a passagem de Jesus a seu Pai por sua Morte e Ressurreição, a Páscoa nova, é antecipada na ceia e celebrada na Eucaristia que realiza a Páscoa judaica e antecipa a Páscoa final da Igreja na glória do Reino” (CIC 1340).

A ceia  pascal judaica, durante a qual Jesus celebrou sua Última Ceia,  fazia memória de todas as celebrações da antiga aliança. Ao nos oferecer seu Corpo e seu Sangue, Jesus recapitula todas essas alianças e as plenifica. Seu corpo dado e seu sangue derramado constituirão a nova e eterna aliança para a redenção de toda a humanidade. Afirma o autor da carta aos Hebreus: “Cristo, porém, veio como sumo sacerdote dos bens futuros. Ele atravessou uma tenda maior e mais perfeita, que não é obra de mãos humanas, isto é, que não pertence a esta geração. Entrou uma vez por todas no santuário, não com o sangue de bodes e de novilhos, mas com o próprio sangue, obtendo a redenção eterna” (Hb 9,11-12).

A universalidade da aliança do Messias não se opõe à eleição particular de Israel, mas nela se enraíza. “A fraternidade de todos os homens convidados para a mesma mesa de Deus não mais se baseia na unidade de raça (como para Israel), nem na similitude do chamado (como para as nações), mas no fato de que toda a humanidade é adotada por Jesus Cristo, de que cada homem se torna verdadeiramente filho de Deus no Filho único”. [1]

A Igreja primitiva manteve o justo equilíbrio entre as várias dimensões do mistério  eucarístico (ceia, ação de graças, sacrifício e presença real). Aos poucos, porém, por motivo de acentuações inadequadas, as dimensões de sacrifício e de presença real foram supervalorizadas, deixando um tanto na sombra as dimensões de ceia e de ação de graças. A doutrina do Concílio de Trento buscou uma concepção equilibrada, mas as dificuldades emanadas da prática litúrgica católica, eivada de imprecisões teológicas e vícios celebrativos  consolidados na piedade popular, como também as posições da Reforma Protestante não permitiram um equilíbrio consistente [2].

O Concílio Vaticano II, apoiado no movimento bíblico e nos novos conceitos elaborados pelo movimento litúrgico, e alicerçado nos ensinamentos da Encíclica Mediator Dei, de Pio XII (1947), logrou apresentar uma síntese equilibrada quando afirmou que cabe à Igreja, esposa bem-amada, “perpetuar no decorrer dos séculos, até que ele volte, o sacrifício da cruz, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da glória futura” (SC 47).

O Catecismo da Igreja Católica lembra: “A Eucaristia é um sacrifício de ação de graças ao Pai, uma bênção pela qual a Igreja exprime seu reconhecimento a Deus por todos os seus benefícios” (n. 1360); “um sacrifício de louvor por meio do qual a Igreja canta a glória de Deus” (n. 1361); “o banquete sagrado da comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor…orientado para a união íntima dos fiéis com Cristo pela comunhão” (n. 1382); “O altar, em torno do qual a Igreja está reunida na celebração da Eucaristia, representa os dois aspectos de um mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor” (n. 1383).

2. O conceito de memorial

Retoma-se o conceito bíblico de memorial. Afirma João Paulo II:Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa redenção  Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos como se tivéssemos estado presentes. Assim cada fiel pode tomar parte nela, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem continuamente reafirmado com jubilosa gratidão por dom tão inestimável”. [3]

Ao anúncio de que a celebração da eucaristia é, por excelência, o mistério da fé, aclamamos:Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus! “Fazemos memória da sua paixão que nos salva, da sua gloriosa ressurreição, da sua ascensão ao céu, enquanto esperamos a sua nova vinda” (Oração Eucarística III).

O Concílio Vaticano II estabeleceu que os textos e ritos sejam ordenados de modo a exprimirem mais claramente as realidades sagradas que significam; depois, que o Ordinário da Missa seja revisto para manifestar melhor o sentido de cada uma de suas partes e a conexão entre elas, e para facilitar a participação piedosa e ativa dos fiéis; que se prepare para os fiéis uma mesa mais abundante da palavra de Deus, abrindo-lhes largamente os tesouros bíblicos; enfim, que se elabore o novo rito da concelebração a ser inserido no Pontifical e no Missal Romano [4].

Jesus havia recomendado na Última Ceia: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19), o que foi lembrado por Paulo (1Cor 11,24-25). O nome de memorial – em hebraico zikkaron, em grego anamnesis – foi o primeiro adotado pelas comunidades cristãs para definir a Eucaristia. O memorial não é entendido pela Igreja como mera recordação subjetiva ou um aniversário. Ele é recordação eficaz, celebração que atualiza o que recorda: ou seja, é um «sacramento» do acontecimento passado. Para os cristãos, o memorial da morte de Cristo, agora ressuscitado, atualiza e comunica, em cada celebração, a força salvadora do acontecimento da cruz. Além disso, o memorial visa também o futuro: em certo sentido, adianta-o e garante-o. Em cada Missa, ao comer o Pão e o Vinho, que são o Corpo de Cristo (presente), proclama-se a morte do Senhor (passado) até que Ele venha (futuro).

Os termos latinos “commemoratio”, “memoriale” e “memoria” foram traduzidos na Igreja primitiva e nos padres da Igreja e no Sacramentário Veronense com memória ou anamnese. No século XII, a Missa era compreendida como uma repetição dramática de um acontecimento histórico-salvífico, sobretudo da paixão, morte e ressurreição de Cristo [5]. Na oração eucarística romana a fórmula pós-consecratória – “unde et memores”   une a memória – anamnese – ao oferecimento. Ambos derivam de uma ordem do Senhor: Fazei isto em memória de mim (Lc 22,20).É assim que São Paulo descreve a Eucaristia (cf. 1Cor 11,26). No entanto, quer a memória, quer o sacrifício devem ser realizados de modo memorial [6].

O conceito memorial não foi devidamente explicitado pela Escolástica[7]. Retomado, em parte, pelos Reformadores, não encontrou eco no Concílio de Trento nem na teologia pós-tridentina. O Movimento Litúrgico, particularmente a partir de Odo Casel, haverá de retomá-lo em sua profundidade bíblico-teológica, sendo posteriormente reassumido pelos documentos do Magistério, particularmente por Pio XII e pelo Concílio Vaticano II.

3. Relação Palavra–Sacramento

O Concílio Vaticano II lembra a importância da Palavra de Deus como elemento fundante da assembleia litúrgica: “A Palavra assume pleno sentido quando proclamada na Igreja, com o povo de Deus reunido, que celebra o mistério redentor de Cristo. O anúncio da palavra pressupõe uma comunidade. Cristo mesmo fala a seu povo” (cf. SC 7). E enfatiza: “É necessário desenvolver aquele suave e vivo amor pela Sagrada Escritura de que dá testemunho a venerável tradição dos ritos, quer orientais quer ocidentais (SC 24). A liturgia da palavra e a liturgia eucarística estão tão intimamente unidas que formam um único ato de culto (SC 56). A Constituição Dogmática sobre a revelação divina observa: “A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como também o próprio corpo do Senhor; sobretudo na sagrada liturgia, nunca deixou de tomar e distribuir aos fiéis, da mesa tanto da palavra de Deus como do corpo de Cristo, o pão da vida” (DV 21).

A relação entre a Palavra de Deus e a liturgia põe em evidência três dimensões: a) A liturgia exige a leitura da Sagrada Escritura não apenas como edificação para os fiéis, mas porque é componente indispensável da liturgia cristã. b) A liturgia é sempre revelação em ato, enquanto constitui o momento em que a Palavra de Deus se faz carne e habita entre nós. c) A liturgia interpreta a Sagrada Escritura na vida da Igreja [8]. A liturgia da palavra proclama a história da salvação operada por Deus. A Eucaristia, memorial ativo do mistério pascal de Cristo, realiza de outro modo, sacramentalmente, esta mesma história da salvação [9].

A Introdução Geral sobre o Missal Romano faz referência, com frequência, ao lugar de destaque que a Palavra deve ocupar na celebração litúrgica: “Quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja, o próprio Deus fala a seu povo, e Cristo, presente em sua Palavra, anuncia o Evangelho” (n. 29). “Na liturgia da Palavra, enfatiza, “Deus fala a seu povo, revela o mistério da redenção e da salvação e oferece alimento espiritual; e o próprio Cristo, por sua Palavra, se acha presente no meio dos fiéis” (n. 55).

“No diálogo salvífico que acontece na liturgia, um lugar particularmente importante corresponde à Palavra de Deus”. [10] Constitui o primeiro e mais importante meio de comunhão entre Deus e seu povo. Na liturgia não temos somente uma leitura histórica da salvação, mas uma atualização dela e uma presença do mistério salvífico para todos os crentes. A palavra revela, explica e conquista. O sacramento realiza e atualiza.

“A revelação e, portanto, sua atualização na Igreja pela proclamação da Palavra, já é uma liturgia e, por parte de Deus, um movimento de comunhão para o homem, um início de santificação; quem escuta já é convidado para a salvação e participa da Aliança, posto que Deus fala aos seus como a amigos (cf. DV 2) [11]. A íntima relação entre palavra e sacrifício é clara especialmente na Última Ceia. Enquanto Jesus explica o seu sacrifício como obediência à palavra do Pai, prepara os seus discípulos para o banquete eucarístico com ensinamentos que exigem atitudes sacrificais [12]. Cristo, palavra encarnada, é na sua vida resposta viva à palavra de Deus.

“A liturgia da palavra cria o ambiente de fé para a Eucaristia que é sacramento da fé. A assembleia acolhe primeiro Cristo como a palavra, comunga com ele, para celebrar depois a memória sacramental de sua morte salvadora. A palavra já inicia o clima de comunhão sacrifical com a adesão a Deus que fala hoje e aqui por meio de Cristo. Enquanto que a Eucaristia continuará sendo proclamação, memória e acolhimento de fé, e se converterá em palavra eficaz de Cristo e de sua Igreja no gesto sacramental”. [13] Pela Palavra que se faz carne (Jo 1,14), toda a carne é chamada a se tornar palavra de louvor a Deus (Hb 13,15), num culto espiritual (Rm 12,1). Esta obra da palavra eficaz (Hb 4,12) realiza-se, para todo crente, por toda a sua vida.

Por fim, propomos uma visão ecumênica da relação entre Palavra e Sacramento. O texto é de G. Gasmann: “Dos enunciados das confissões luteranas podemos deduzir que a Palavra de Deus é irrevogavelmente a categoria central e a que define a realidade e eficácia dos sacramentos, bem como sua interpretação. A Palavra de Deus, geralmente em forma das palavras da instituição, transforma uma ação e um sacramento, e alguns elementos naturais, em sinais da salvação do homem. No sacramento, a Palavra e o elemento são instrumentos da graça, e não apenas a Palavra. No sacramento, a Palavra de Deus se torna palavra de promessa e de segurança da salvação gratuita do pecador, dada aos fiéis na forma audível, visível, tangível e corporal”. [14]

4. Os protagonistas do mistério eucarístico

Afirma a constituição litúrgica: “Disso se segue que toda a celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote e de seu Corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja” (SC 7). A liturgia é simultaneamente, em grau diverso, uma ação de Cristo, do Espírito Santo e da Igreja, da comunidade eclesial. Constitui uma ação de todo o Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros. Há um tríplice significado da palavra Igreja: Igreja universal, Igreja local e Igreja particular.

A assembleia do povo de Deus é, pois, um elemento essencial na celebração litúrgica, por ser uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus (1Pd 2,9). “Uma assembleia litúrgica será tanto mais perfeita quanto melhor conseguir realizar em si mesma, no nível espiritual, existencial, e no nível hierárquico constitutivo, o mistério da Igreja”. [15]

A Constituição Sacrosanctum Concilium recorda, com frequência, a presença do Povo de Deus nas assembleias litúrgicas (SC 6;7;14; 26-27). A Constituição Dogmática Lumen Gentium dedica longo parágrafo a essa reflexão: “Esta Igreja de Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas assembleias locais de fiéis, que, unidas aos seus pastores, recebem, elas também, no Novo Testamento, o nome de igrejas. São, em cada território, o povo novo, chamado por Deus no Espírito Santo e em grande plenitude (cf. 1Ts 1,5). Em cada comunidade reunida em volta do altar, sob o ministério sagrado do bispo, é oferecido o símbolo daquela caridade e daquela unidade do corpo místico sem a qual não pode haver salvação. Nestas comunidades, por mais reduzidas, pobres e dispersas que sejam, está presente Cristo, em virtude do qual se congrega a Igreja una, santa, católica e apostólica” (LG 26).

A assembleia litúrgica cristã encerra uma série de características que revelam sua identidade eclesial.

Primeiramente, o sinal de estar juntos, não apenas sociologicamente, mas sobretudo religiosamente. Não significa uma coincidência, mas demonstra uma realidade intencional. É uma reunião sagrada, onde se evidencia a fé em Jesus Cristo e em seu mistério pascal. Constitui, pois, sinal do povo da aliança com o Pai, em Cristo, no amor do Espírito Santo.

Em segundo lugar, persiste uma dimensão de mistério, uma vez que realiza-se sacramentalmente o memorial da nova e eterna aliança celebrada por Cristo e entregue por ele à sua Igreja (Lc 22,19; SC 7). Cristo não só preside à celebração litúrgica: ele é o princípio principal e fundante de toda celebração. Há, pois, uma tensão entre Cristo sacramentalmente presença e sua presença gloriosa, fazendo permanentemente novas todas as coisas (Ap 21,5).

A assembleia litúrgica tem, ainda, uma dimensão universal e local. “A assembleia litúrgica, afirma Castellano, especialmente a celebração eucarística, é a mais verdadeira expressão da Igreja no nível de sinal e realização. No nível de sinal: a assembleia litúrgica evoca a realidade da Igreja como assembleia convocada pela Palavra, Corpo e Esposa de Cristo, Templo do Espírito, Família de Deus etc., na unidade da participação. No nível de realidade: a plenitude do ser Igreja é experimentado na liturgia”. [16]

A Igreja não pode, portanto, fechar-se em si mesma ou considerar-se autossuficiente. Todo fechamento é negação à vida. A assembleia litúrgica estará aberta aos que acreditam, como também aos que têm dificuldades na vivência da fé. Na Igreja, todos devem tender à perfeição (LG 39) e todos os fiéis são chamados à santidade (LG 40; 1Pd 2,9; Ef 5,25-26; Cl 1,12-13). A fé expressa nossa resposta à proposta salvadora de Deus. Não é algo exterior ao sacramento, mas parte constitutiva dele. Fé e sacramento se exigem mutuamente. A fé cristã manifesta-se, pois,  em vários aspectos. Deverá ser uma expressão da fé batismal, que se expressa no ato de celebrar, vivida eclesialmente como expressão da adesão pessoal a Cristo. Somos um povo santo e pecador, trigo e joio (Mt 13,24-30).

A assembleia litúrgica deve acolher igualmente a todos, respeitando a diversidade de dons, carismas e ministérios, sem acepção de pessoas (Tg 2,9). A assembleia reunida forma um corpo hierárquico e carismático (rico em carismas). Gelineau observa com propriedade: “Há, pois, uma estrutura sacramental na assembleia com um aspecto visível que exprime o aspecto invisível. A pessoa daquele que preside (bispo, presbítero) é como a cabeça de Cristo, cujos membros são constituídos pelo povo reunido. Essa estrutura é como que bipolar: de um lado, a presidência, sinal pessoal do Senhor e Sacerdote; de outro, o povo, sinal da Igreja, a exercer seu sacerdócio batismal”. [17]

Nessa comunidade de pessoas que celebram o mistério de Cristo há um caráter histórico-local e uma dimensão escatológica. “É preciso captar todo o sentido humano da assembleia para comprovar como o mistério da Igreja celebrante se expressa em diversidades acidentais, sem dar a essas particularidades um peso tão grande que seja em detrimento do sentido da vida teologal dos participantes e da realidade teológica da única liturgia eclesial”. [18]

A celebração eucarística é, por excelência, o exercício do sacerdócio do povo de Deus, povo, todo ele, sacerdotal (1Pd 2,9). O povo de Deus, na unidade do sacerdócio de Cristo e na diversidade de funções, ministérios e carismas eclesiais, celebra o memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo. “O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, apesar de diferirem entre si essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se um para o outro; de fato, ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo” (LG 10).

O Catecismo da Igreja Católica ensina que a liturgia é ação do Cristo total – Christus totus – (CIC 1136). Lembra, ainda, que é a comunidade, corpo de Cristo-Cabeça, que celebra. “Por isso, as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é o sacramento da unidade, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos bispos” (CIC 1140). Mais adiante, confirma que a assembleia que celebra é a comunidade dos batizados (CIC 1141). A assembleia inteira é o liturgo, cada um segundo a sua função, sempre na unidade do Espírito (CIC 1144).

A assembleia litúrgica, reunida aqui e agora, une-se à Igreja da glória e com ela celebra o mistério de Cristo (Ap 11,17-18;12,10-12). “Com toda a milícia do exército celeste entoamos um hino de glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; esperamos pelo salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, até que ele, nossa vida, se manifeste, e nós apareceremos com ele na glória” (SC 8).

Lembra Castellano: “É uma comunidade de batizados que vive, de modo especial neste momento, o sacerdócio profético e real, que é o de Cristo, único sacerdote, participado por todos os membros de seu corpo. Esse sacerdócio comum ou batismal fundamenta o direito e o dever, mas antes de tudo, o dom grande e imerecido por nossa parte, de uma plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas”. [19]

Evidentemente, não se pode deixar de pôr em evidência a ação transformadora do Espírito Santo, tanto na assembleia como na celebração litúrgica. É ele que atualiza o mistério da redenção (CIC 1112), é memória viva da Igreja (CIC 1099). “A liturgia é o culto do Espírito de Jesus Cristo. Proclama-se a Sagrada Escritura na Igreja para deixar-nos vivificar pelo Espírito Santo, mediante a Palavra viva de Deus. Celebram-se igualmente os ritos do culto cristão para professar nossa fé no mistério pascal de Jesus Cristo e para vivenciar as maravilhas do Espírito de Deus em meio a seu pov o. Chegamos, assim, à realidade espiritual, espontânea e experencial do culto litúrgico”.[20]

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert
Endereço do autor: Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041
88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com


[1]  Cf. DEISS, L. – A Ceia do Senhor, São Paulo, Paulinas, 1985, pp. 51-52.

[2]  Cf. ALDAZÁBAL, J. – Eucaristia, Petrópolis, Vozes, 2002, p. 215.

[3]  Cf. João Paulo II – Ecclesia De Eucharistia, n. 11.

[4]  Cf. Paulo VI – Constituição Apostólica “Missale Romanum”, 3 de abril de 1969.

[5] Cf. JUNGMANN, J.A. – Missarum Sollemnia, São Paulo, Paulus, 2009, p. 125.

[6] Cf. JUNGMANN, J.A. – ibidem, pp. 676-677.

[7] Cf. VAGAGGINI,C. – O sentido teológico da liturgia, São Paulo, Loyola, 2009, pp. 514ss.

[8] Cf. FLORES, J.J. – Introdução à Teologia Litúrgica, São Paulo, Paulinas, 2006, p. 337.

[9] ALDAZÁBAL, J. – A Eucaristia, Petrópolis, Vozes, 2002, p. 408.

[10] Cf. CASTELLANO, J.– Liturgia e Vida Espiritual, São Paulo, Paulinas, p. 283.

[11] Cf. CASTELLANO, J. – ibidem, p. 298.

[12] Cf. AUGÉ, M. – Liturgia: história, celebração, teologia, espiritualidade, São Paulo, Ave Maria, 1998, p. 137.

[13] Cf. ALDAZÁBAL, J. – A Eucaristia, Petrópolis, Vozes, 2002, p. 408.

[14] Cf. GASMANN, G. – in BROUARD, M. (Org.) – Eucharistia: Enciclopédia da Eucaristia, São Paulo, Paulus, 2006, p. 871.

[15]  Cf. CASTELLANO, J. – Liturgia e Vida Espiritual, São Paulo, Paulinas, 2008, p. 222.

[16] Cf. CASTELLANO, J. – ibidem,  pp. 230-231.

[17] Cf. GELINEAU, J. – Em Vossas Assembleias, São Paulo, Paulinas, 1975, p. 65.

[18] Cf. CASTELLANO, J. – ibidem,  p. 228.

[19]  Cf. CASTELLANO, J. – ibidem, p. 236.

[20]  Cf. SPERA, J. C. – RUSSO, R. – in Celam, Manual de liturgia, vol I, São Paulo, Paulus, 2004, p. 126.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: