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VII – PARTICIPAÇÃO NA LITURGIA

Introdução

A liturgia é ação de Christus totus – Cristo todo – Cabeça e membros. Em Cristo, Sacerdote, Altar e Cordeiro, toda a Igreja é celebrante, cada membro de acordo com sua especificidade ministerial. Afirma o Catecismo da Igreja Católica: “É toda a comunidade, o corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra. As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é o sacramento da unidade, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos bispos” (n. 1140). E continua: “A assembleia que celebra é a comunidade dos batizados, os quais, pela regeneração e unção do Espírito Santo, são consagrados para serem casa espiritual e sacerdócio santo e para poderem oferecer como um sacrifício espiritual toda atividade humana do cristão. Este sacerdócio comum é o de Cristo, único sacerdote, participado por todos os seus membros”(n. 1141) [1].

Do exercício desse sacerdócio deriva para os fiéis a graça, o direito e o dever de participar ativa, consciente, plena, frutuosa e piedosamente da liturgia.

Participação na Liturgia

Lembra a Constituição Conciliar: “É desejo ardente da mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação na celebração litúrgica que a própria natureza da liturgia exige e à qual o povo cristão, ‘raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido’ (1Pd 2,9; cf. 2,4-5), tem direito e obrigação, por força do batismo. A essa plena e ativa participação de todo o povo cumpre dar especial atenção na reforma e incremento da sagrada liturgia: com efeito, ela é a primeira e necessária fonte, da qual os fiéis podem haurir o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas, em toda a sua atividade pastoral, a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida formação” (SC 14).

A primeira finalidade da reforma litúrgica não foi simplesmente a mudança de ritos, de fórmulas e de textos, mas de comportamento celebrativo. Participação não pode ser confundida com mera observação de rubricas.  Era preciso aproximar os fiéis do mistério celebrado. Por ser a liturgia a fonte e o cume da vida da Igreja (SC 10), os cristãos devem participar com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente (SC 11) e, assim, colaborar para a plena celebração comunitária da fé. Todos os membros da assembleia litúrgica são convocados a participar, não apenas alguns.

É preciso tomar parte da liturgia como um todo como realmente ela o é, e não apenas de sua expressão ritual. Importa lembrar a relação íntima entre ação litúrgica e vida cotidiana. Em outros termos, é necessário penetrar no mistério de Cristo celebrado na liturgia, entrar em profundo contato com o Salvador em seu mistério pascal. Por isso, além da formação litúrgica, catequética e doutrinal, é fundamental desenvolver uma espiritualidade litúrgica (participação interior) que alimente e dê sentido à participação exterior [2].

A participação na liturgia não é apenas uma questão de direito e de dever; antes de tudo, é um dom, uma graça, uma eleição. Somos convocados pelo Pai  para oferecer com Cristo, por Cristo e em Cristo o único Sacríficio que foi do seu agrado, o Sacrifício de seu próprio Filho, oferecido uma vez por todas na Cruz, Ele que vive para todo o sempre. Não nos autoconstituímos povo de Deus; o Senhor nos escolheu (1Pd 2,6-9).

A partir dessa eleição deriva o direito e o dever de participar ativa, consciente, plena, frutuosa e piedosamente do mistério de Cristo, celebrado na liturgia. “É desejo ardente da mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação na celebração litúrgica que a própria natureza da liturgia exige e à qual o povo cristão, raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido , tem direito e obrigação, por força do batismo” (SC 14).

Para chegar a essa eficácia plena, é necessário que os fiéis se acerquem da sagrada liturgia com disposições de reta intenção, adaptem a mente às palavras, e cooperem com a graça divina para não recebê-la em vão (SC 11). Que disposições seriam essas, para que “o nosso sacrifício seja aceito por Deus Pai todo-poderoso” (IGMR 25), senão aquelas atitudes propostas pelo profeta Isaías ao povo eleito: buscar o Senhor cada dia, através da prática da justiça, da observância da Lei, do jejum, da honestidade, do empenho pela fraternidade, pela mortificação dos costumes perversos, pela prática diária da caridade fraterna, mediante o acolhimento dos pobres, dos órfãos, das viúvas, dos peregrinos (Is 58, 1-9)?

A participação na liturgia não termina quando se encerra o rito, pelo simples fato de que a liturgia não termina; é apenas celebrada de outro modo e em outro espaço: na vida concreta de cada dia. Há que realçar, ainda a relação entre liturgia e vida.

Qualificações da participação litúrgica

Cabe, por último, analisar, ainda que rapidamente, as qualificações dessa participação litúrgica, descritas na Constituição Conciliar com os termos participar ativa, consciente, plena, frutuosa e piedosamente da liturgia [3].  Na vida litúrgica da diocese que gravita em torno do bispo, sobretudo na igreja catedral, manifesta-se a Igreja e se promove uma participação perfeita e ativa de todo o povo santo de Deus, especialmente na mesma eucaristia, numa única oração, num só altar a que preside o bispo rodeado pelo seu presbitério e pelos seus ministros” (SC 41).

Participação ativa

A liturgia é definida como uma ação, um trabalho, uma função (ourgia) em favor do povo (laós) – leitourgia. A dimensão ativa está, pois, intrinsecamente presente. Participar da liturgia é desenvolver uma ação “sagrada”. Por conseguinte, ninguém é objeto no execercício de uma ação litúrgica. Somos todos sujeitos a partir do sacerdócio batismal, para todos os fiéis, e também a partir do sacerdócio ministerial para os ordenados.

Na verdade, quando se afirma que os fiéis participam de uma única ação de Cristo e da Igreja como sujeitos não significa que eles sejam  os titulares dessa ação, mas os destinatários das ações e palavras salvíficas de Cristo. Ser destinatário não é ser mero objeto. Nós interagimos com Cristo. Somos seres livres. Cristo sempre será o titular.

Uma ação que envolve a pessoa inteira, interna e externamente: espírito, mente, sentidos, gestos, palavras, liberdade, criatividade, silêncio. “A ação litúrgica, portanto, tem, por natureza, que envolver a pessoa inteira num processo de comunicação que ultrapassa os limites do sensível, mas não as fronteiras da história, pois quando o homem se integra em Deus, também ajuda na integração do mundo, vítima da desintegração do pecado. O ponto máximo dessa integração se dá na comunhão entre o céu e a terra em Cristo Ressuscitado” [4].

A participação deverá ser sempre plena, tanto interna como externamente. Ainda que se admitam graus mais ou menos perfeitos nessa participação, sempre deve-se tender a obter a máxima vivência, em ambos os aspectos. A meta é a participação plena.

A liturgia, por ser um culto essencialmente eclesial, comunitário, exige uma participação também comunitária. Respeita-se a subjetividade, mas não o subjetivismo. “Quando, portanto, se diz que a pastoral litúrgica se preocupa essencialmente em fornecer à celebração litúrgica uma expressão social e comunitária, se quer dizer simplesmente que ela se preocupa com induzir os fiéis a responder do modo mais perfeito possível também na sua subjetividade interna e externa ao caráter necessariamente social e comunitário de toda ação litúrgica” [5].

Em vista da melhor participação dos fiéis na celebração e na Igreja, o Espírito  e a comunidade eclesial suscitam os ministérios litúrgicos como um serviço. Não compete a eles, portanto, promover um show, mesmo porque a liturgia não é um teatro, mas a celebração do mistério pascal de Cristo. Os ministros não estão a serviço próprio, mas do povo celebrante. Não chamarão a atenção do povo para si, mas conduzirão a assembleia para Cristo. Ninguém deverá roubar o lugar de Cristo: Ele é o único Senhor.

No entanto, a participação se realiza pela mediação do rito. “Por isso, a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem da ação sagrada, consciente, piedosa e ativamente, por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos na palavra de Deus; alimentem-se na mesa do Corpo do Senhor; deem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que dia após dia, por meio de Cristo mediador, progridam na união com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos” (SC 48).

O rito é essencialmente ativo, não normativo; por isso, não pode ser confundido com rubrica. Seu mundo é simbólico. A liturgia é um complexo de sinais sensíveis, por meio dos quais os fiéis, em Cristo e por Cristo, na Igreja e pela Igreja, prestam seu culto a Deus. Assim o sinal litúrgico, no regime efetivamente querido por Deus, é o lugar de encontro entre Deus e o homem, onde Deus desce ao homem e o homem sobe a Deus.

É preciso preocupar-se em realizar bem o rito, isto é, em não quebrar o rito pelo excesso de comentários absolutamente desnecessários, por improvisações inoportunas durante a celebração. Não se pode, também,  forçar a vivência do rito, ou colocar o rito a serviço de privilégios, quer de pessoas, quer de situações. É necessário deixar o rito falar. Já nos perguntamos o que o rito tem a nos dizer? Mais que executar uma cerimônia exterior, celebrar um rito significa entrar na intimidade do mistério, deixar-se tocar por Deus. O verdadeiro encontro acontece para além dos sinais exteriores.

Participação consciente

Não pode haver verdadeira participação ativa que não seja igualmente consciente. A Sacrosanctum Concilium coloca-as juntas, porque, na verdade, são inseparáveis (SC 11, 14, 48). Num primeiro momento, percebe-se a necessidade da evangelização e da catequese litúrgica (SC 59). Certamente o conhecimento da fé é importante para que se possa responder ao por que se celebra, qual o motivo por que celebramos nossa fé.

A participação consciente engloba razão, sentimento, emoção.  Integra os vários sentidos da palavra consciente: conhecimento, convicção, convivência, participação comum. Na Sagrada Escritura, o verbo conhecer expressa a solidariedade familiar (Dt 33,9) e as relações conjugais (Gn 4,1). O homem conhece a Deus quando é atingido por sua ação julgadora (Ex 12,15). Conhece-o de modo bem diferente quando entra na sua aliança (Jr 31,34). E é pouco a pouco introduzido na sua intimidade. O conhecimento é também relacionado à transformação interior (Dt 30,6), à mudança do coração de pedra em coração de carne (Ez 36,26).

Segundo a Escritura, o conhecimento vem mais do coração do que da inteligência. É, pois, sumamente pertinente a observação: “Desse modo, a palavra-chave para a participação litúrgica consciente é iniciação, que foi um dos pontos altos dos primórdios da Igreja. É preciso conhecer o mistério de Cristo (com a mente) para poder se identificar com ele (com o coração). O problema da liturgia está na falta de iniciação ao mistério, que a evangelização e a catequese  têm o dever de proporcionar. Para amar é preciso conhecer e para conhecer de verdade é preciso amar” [6].

Por isso, participar conscientemente não significa apropriar-se do mistério, como se pudéssemos abrangê-lo com nosso intelecto. Antes: o mistério de Cristo envolve-nos, nos atinge e alcança com seu poder redentor. O Espírito de Deus, que conhece todas as coisas, nos conduz à plena consciência.

Participação plena

O termo pleno abrange muitos significados. Indica, inicialmente, uma atitude de unidade entre corpo e espírito, ser e agir, mente e coração. Abarca o ser humano por inteiro. Lembra também que a celebração litúrgica constitui uma unidade: palavras, ritos, gestos, silêncio, atitudes, serviços, funções. “A participação litúrgica é plena, portanto, quando atinge o mistério, envolvendo todas as dimensões da corporeidade e gerando a sintonia das ações litúrgicas” [7].

A participação plena começa pela acolhida de Deus e dos irmãos. É um dom. Entrar em comunhão com esse dom é essencialmente obra do Espírito de Deus. A participação na liturgia deve educar-nos para esse encontro. Afirma Matias Augé: “A liturgia possui uma pedagogia específica própria para conduzir os participantes a penetrar no mistério celebrado, que passa através dos ritos e das orações. Esta pedagogia, porém, é ineficaz se não se está preparado para absorvê-la e assimilá-la a ponto de deixar-se dominar pela celebração e transformar-se, desta forma, em participantes envolvidos e em protagonistas” [8].

A Constituição Conciliar ensina que os sacramentos “não só supõem a fé, mas por palavras e coisas a alimentam, a fortalecem e a exprimem” (SC 59). Isso significa que a plena participação manifesta-se pelo acolhimento da fé, uma fonte da espiritualidade litúrgica. Verdadeira experiência de plenitude e de gozo da presença de Deus. O culto em espírito e em verdade.

Participação frutuosa

Depois de afirmar que a liturgia é o cume para o qual se dirige toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana sua força, a Constituição Conciliar põe em relevo a dupla dimensão da liturgia e, de modo particular, da eucaristia: a glorificação de Deus e a santificação da humanidade em Cristo (SC 10). A participação frutuosa acontece quando são alcançadas essas dimensões.  “O  texto  e as cerimônias devem ordenar-se de tal modo, que de fato exprimam mais claramente as coisas santas que eles significam e o povo cristão possa compreendê-las facilmente, na medida do possível, e também participar plena e ativamente da celebração comunitária” (SC 21).

Na profecia de Ezequiel, as águas que jorravam de sob o limiar do Templo e que se transformavam num rio que somente se podia atravessar a nado, davam vida a uma quantidade enorme de peixes e, até mesmo, tornavam saudáveis as águas do mar salgado. As árvores produzirão frutos abundantes durante todo o ano e suas folhas servirão de remédio (Ez 47,1-12). A participação frutuosa na liturgia nos permite experimentar os frutos da salvação, regados pelo sangue e pela água que brotaram do lado aberto de Cristo na Cruz. Águas santas e santificadoras que nos regeneraram pelo batismo para uma vida nova em Cristo ressuscitado e que, desembocando nas águas salgadas das nossas contínuas imperfeições, vão santificando nossos maus hábitos, pensamentos, palavras e atitudes para nos tornarmos novo fermento (1Cor 5,7-8).

Participação piedosa

A piedade é um dom do Espírito Santo. A participação piedosa na liturgia é essencialmente obra sua. O dom da piedade produz em nós uma afeição filial para com Deus, adorando-o com amor sobrenatural e santo ardor, e uma terna afeição para com as pessoas e coisas divinas. Aprimora em nós a virtude da justiça, sob todas as suas formas, a da religião, a da própria piedade e a da gratidão. Pela virtude da justiça, damos ao outro (a Deus ou ao próximo) aquilo que lhe pertence. Pelo dom da piedade, damos ao outro tudo o que podemos dar, sem medidas. O dom da piedade gera no coração humano a experiência existencial da nossa filiação divina. Por ele, somos introduzidos no relacionamento do Filho de Deus, Jesus, com o Pai, na Trindade.

A participação piedosa mobiliza a mente, o coração, as emoções, os afetos. Não se confunde, no entanto, com pietismo, que constitui uma expressão doentia da piedade. Sob outro aspecto, está relacionada com consagração a Deus, com voto, que leva o ser humano a uma experiência mística com o mistério da piedade “manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na glória” (1Tm 3,16). O acolhimento do mistério celebrado harmoniza  o ser humano interior e exteriormente.

O exercício da participação piedosa abrange ainda aquelas expressões públicas ou privadas da piedade cristã designadas com o nome de piedade popular, religiosidade popular, catolicismo popular, devoções populares. Mesmo não fazendo parte da liturgia, estão em harmonia com ela, respeitando seu espírito, normas e ritmos. Essa temática será abordada em outro momento.

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert
Endereço do Autor: Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041
88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com


[1]  Cf. LG 10.

[2] José Raimundo de Melo enumera uma série de meios, visando à participação mais plena dos fiéis nas celebrações litúrgicas: educação litúrgica dos fiéis; adoção da língua do povo; adaptação do espaço celebrativo à celebração; preparação da celebração; introdução de variações na celebração; valorização da homilia; utilização de gestos simbólicos; incentivo ao canto e à música litúrgica e recepção da comunhão eucarística. Cf. DE MELO, R.J. – A Participação Ativa na Liturgia: Grande Aspiração da Reforma Litúrgica do Vaticano II, in DA SILA, A. e SIVINSKI, M. – Liturgia, um Direito do Povo, Petrópolis, Vozes, 2001, pp. 21-36.

[3] São muitos os autores que desenvolvem este tema. Cito particularmente Valeriano Santos Costa em seu livro Viver a ritualidade litúrgica como momento histórico da salvação, São Paulo, Paulinas, 2005.

[4] SANTOS COSTA, V. ibidem, p. 49.

[5] C. VAGAGGIINI, C. – O Sentido Teológico da Liturgia, São Paulo, Loyola, 2009, p. 715.

[6] Cf. SANTOS COSTA, V. – ibidem, p. 80.

[7] Cf. SANTOS COSTA, V. – ibidem, p. 84.

[8] Cf. AUGÉ, M. – Liturgia, história, celebração, teologia, espiritualidade – São Paulo, Ave-Maria, 1998, p. 80.

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