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VIII – PASTORAL LITÚRGICA

Introdução

A liturgia é uma ação, uma obra (ergon) a serviço do povo (laos); por isso, fala-se frequentemente em ação litúrgica, aludindo ao dinamismo que envolve o conjunto dos ritos e a participação da assembleia. A pastoral litúrgica coordena, anima, organiza esse serviço, mantendo-se fiel ao mistério celebrado e à comunidade celebrante. “A liturgia é, por conseguinte, práxis simbólica, isto é, ortopraxis profundamente unida à ortodoxia à medida que não se reduz a mera cerimônia ritual, já que expressa, atualiza e torna operativa a práxis pascal de Cristo” [1]. A pastoral litúrgica, no contexto da fidelidade à ortodoxia, ao magistério e ao reto procedimento litúrgico, visa a celebrar dinamicamente esses mistérios da fé, a fim de que toda a comunidade cristã tenha vida e vida em abundância (Jo 10,10).

Afirma o Concílio Vaticano II: “Com razão, portanto, a liturgia é considerada como exercício da função sacerdotal de Cristo. Ela simboliza através de sinais sensíveis e realiza em modo próprio a cada um a santificação dos homens; nela o corpo místico de Jesus Cristo, cabeça e membros, presta a Deus o culto público integral” (SC 7). O fim último da liturgia é o culto a Deus (SC 59). No entanto, a pessoa do Verbo e seu sacrifício redentor foram o instrumento de nossa salvação (SC 5).

A liturgia possui, por conseguinte, uma dimensão pastoral, visto que concretiza a ação pascal de Cristo e predispõe a comunidade à celebração. “A liturgia precede a pastoral litúrgica, uma vez que é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo (SC 9). Ela é mais do que a pastoral, e a ultrapassa. A liturgia está na linha do ser da Igreja; a pastoral liturgica encontra-se na ordem do crescimento do corpo de Cristo” [2].

A pastoral litúrgica tem um antes (anúncio profético da palavra, de evangelização e de catequese), um durante (celebração do mistério anunciado) e um depois (momento da vivência do amor celebrado, através da caridade fraterna e da transformação do mundo). Ela constitui uma parte da ação pastoral da Igreja (SC 9). A pastoral litúrgica é uma ação pastoral do povo de Deus com o objetivo de edificar o corpo de Cristo, através das ações eclesiais do culto cristão, tendo em consideração a situação do povo de Deus.

A meta da pastoral litúrgica consiste em viabilizar a participação ativa, consciente, frutuosa e plena do povo no mistério de Cristo, respeitando a linguagem simbólica dos ritos, gestos, palavras e atitudes, no contexto do tempo, do lugar e das circunstâncias, segundo as características das diversas culturas, povos e nações. Em vista dessa pastoral, a Constituição Conciliar enumera alguns princípios importantes: a preservação da natureza da liturgia; a reforma litúrgica; as possíveis adaptações na liturgia; a dimensão evangelizadora da espiritualidade litúrgica;  a participação consciente,ativa frutuosa e plena dos fiéis; os exercícios de piedade e a religiosidade popular; a formação litúrgica. Vários desses temas já abordamos em outros artigos.

1. Preservação da natureza da liturgia

No Proêmio, a Constituição litúrgica lembra que é preciso “adaptar melhor às exigências do nosso tempo aquelas instituições que são suscetíveis de mudanças” (SC 1). Essa recomendação deseja assegurar que existem elementos não suscetíveis de mudança, isto é, elementos permanentes, fundantes na celebração litúrgica: a atuação da obra da nossa redenção; a manifestação do mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja; o humano orientado e subordinado ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, a realidade presente à futura; a habitação de Deus no Espírito; a plenitude de Cristo; o anúncio  da Igreja como estandarte erguido diante das nações, sob o qual os filhos dispersos de Deus possam reunir-se na unidade, para que haja um só rebanho e um só pastor  (SC 2).

Mais adiante, o Concílio afirma, uma vez mais, que “a liturgia compõe-se de uma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes suscetíveis de mudanças. Estas, com o passar dos tempos, podem ou mesmo devem variar, se nelas se introduzirem elementos que menos correspondam à natureza íntima da própria liturgia, ou se estes se tenham tornado menos oportunos” (SC 21). Lembra também que “as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é ‘sacramento de unidade’, povo santo reunido e ordenado sob a direção dos bispos” (SC 26).

A liturgia precisa evidenciar, em qualquer tempo ou lugar, que a natureza humana de Cristo, na unidade da pessoa do Verbo, foi o instrumento de nossa salvação. Pelo que nele deu-se o perfeito cumprimento da nossa reconciliação com Deus e nos foi comunicada a plenitude do culto divino (SC 5). Por sua morte e ressurreição Jesus Cristo nos livrou do poder do mal e da morte e nos transferiu para o reino do Pai (SC 6). Por sua morte e ressurreição fomos adotados como filhos (SC 6). Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente em sua Igreja, e especialmente nas ações litúrgicas (SC 7).

No entanto, embora seja o cimo para o qual se dirige a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte donde emana toda a sua força, a liturgia  não esgota toda a ação da Igreja (SC 10). Há um antes e um depois que preparam os fiéis para a ação litúrgica e que os encaminham para a vivência cristã na socidade. A pastoral litúrgica tem a ver com o antes, o durante e o depois.

2. Promoção da reforma litúrgica

Precisamente para não perder o foco dos elementos essenciais da liturgia, uma vez que o mistério de Cristo deve ser celebrado pela Igreja para a glorificação de Deus e a redenção dos homens, o documento conciliar afirma: “Realmente, nesta grandiosa obra, pela qual Deus é perfeitamente glorificado e os homens são santificados, Cristo sempre associa a si a Igreja, sua amadíssima esposa, que invoca seu Senhor, e por ele presta culto ao eterno Pai (SC 7).

Antes de nos reportarmos aos vários aspectos dessa reforma litúrgica, recordamos algumas normas gerais: 1 O Concílio relembra princípios referentes ao incremento e à reforma da liturgia e estabelece algumas normas práticas (SC 3). 2 É necessário promover a reforma, o progresso e a adaptação da sagrada Liturgia (SC 24). 3 Embora seja mantido o uso da língua latina nos ritos latinos, onde for oportuno, o Concílio reconhece que, não raramente, o uso da língua vernácula pode ser muito útil para o povo, seja na missa, seja na administração dos sacramentos, seja em outras partes da liturgia (SC 36). 4 A Constituição recomenda ainda o incremento da vida litúrgica na Diocese e nas Paróquias (SC 41), e o incentivo à pastoral litúrgica (SC 43).

3. Princípios da adaptação litúrgica

A Constituição conciliar reconhece a necessidade de adaptar melhor às exigências do nosso tempo aquelas instituições que são suscetíveis de mudanças, sem deixar de reconhecer que há limites a serem respeitados (SC 1). Embora não use o termo inculturação, em determinadas circunstâncias o Concílio deixa transparecer a necessidade desse processo. “A Igreja não deseja impor na liturgia uma rígida uniformidade para aquelas coisas que não dizem respeito à fé ou ao bem de toda a comunidade; mas respeita e procura desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos. A Igreja considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissoluvelmente ligado à superstição e ao erro, e, quando possível, o conserva inalterado, e por vezes até admite-o na própria liturgia, conquanto esteja de acordo com as normas do verdadeiro e autêntico espírito litúrgico” (SC 37).

“Em outras palavras, – de acordo com a ponderação de Anscar Chupungco – a adaptação se refere ao programa geral de atualização ou aggiornamento. Mas como a adaptação é culturalmente neutra, ela precisa da aculturação, da inculturação e da criatividade como enfoques, métodos ou maneiras de realizar a atualização proposta pelo Concílio” [3]. A aculturação litúrgica  constitui interação entre a liturgia romana e a cultura local. Esse processo passa por um estudo dos elementos  culturais que possam ser assimilados, de acordo com uma metodologia própria e as leis intrínsecas que regem tanto o culto cristão como a cultura. A inculturação, por sua vez, é um processo pelo qual os textos de ritos usados no culto pela Igreja local estão de tal modo inseridos na estrutura da cultura que absorvem seu pensamento, sua linguagem e seus modelos rituais [4].

Há uma razão antropológica e teológica na base desse processo. Afirma o Concílio: “Como Cristo, por sua encarnação, se ligou às condições  sociais e culturais dos homens, com quem conviveu, assim deve a Igreja inserir-se em todas essas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus (AG 10). Evidentemente, por causa da natureza do culto cristão, há elementos culturais que não podem ser assimilados sem passar por uma avaliação crítica (SC 37).

Por criatividade litúrgica entendemos que os novos textos litúrgicos podem ser compostos independentemente da estrutura tradicional do eucológio romano [5]. Abre-se a possibilidade para a criação de novos modelos de formulários com outros padrões linguísticos, como a preparação de novos ritos litúrgicos. Não se trata simplesmente de mudar o rito; por vezes, mais importante que modificar é aprofundar o verdadeiro significado interior, o conteúdo  do  mistério que o rito encerra e que entende celebrar. É possível que o problema não passe tanto pela mudança do rito, mas pela compreensão bíblico-teológica do mesmo. Nesse caso, é preciso priorizar a espiritualidade e a catequese litúrgicas.

Não é raro ouvir falar em ritualismo, cerimônia enfadonha, formalidade sem vida, exterioridade sem coração… O rito, antes de ser celebrado, deve ser acolhido. É um dom do Espírito. Os ritos litúrgicos não são realidades vazias. Afirma Andrea Grillo: “A reforma litúrgica não significa, em primeiro lugar, a reforma que a liturgia sofre nos próprios ritos, e sim, a reforma que a liturgia promove mediante os próprios ritos”. [6] No contexto da fé, são os ritos que nos devem transformar, e não tanto mudarmos nós os ritos.

4. Espiritualidade litúrgica

Comenta o Concílio: “Deste modo a liturgia, enquanto edifica aqueles que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em habitação de Deus no Espírito, até atingir a medida da plenitude de Cristo, ao mesmo tempo e de modo admirável robustece as suas forças para que preguem o Cristo; e assim aos que estão fora, ela mostra a Igreja como estandarte erguido diante das nações, sob o qual os filhos dispersos de Deus possam reunir-se na unidade, para que haja um só rebanho e um só pastor” (SC 2).

Nos albores do Movimento litúrgico foram importantes a reflexão e a renovação nos mosteiros. Nomes como Própero Guéranger (1805-1875) e seus dois irmãos monges Mauro e Plácido Wolter promoveram a renovação litúrgica no mosteiro de Solesmes. Para Guéranger, a liturgia devia ser a oração da Igreja por excelência [7]. De fato, na liturgia não são os agentes humanos os principais protagonistas, mas Deus. É essencialmente obra da Santíssima Trindade que se eleva ao Pai pelo Filho na unidade do Espírito Santo. O original da liturgia não são as formas (realidades humanas), mas  o conteúdo e o mistério [8].

O Documento de Aparecida aborda várias dimensões da Espiritualidade cristã nos diversos níveis da Igreja universal, diocesana e paroquial. Afirma que deve estar a serviço da comunhão missionária (DA 203). Assegura José María Arnaiz: “A iniciação em uma espiritualidade é levada a cabo pelos mestres, os que já são discípulos missionários. Entre eles se apresenta Maria, e se descreve com muito acerto seu trabalho formador (DA 266-272). Mestres são também os apóstolos e os santos e santas e, sobretudo, os grandes missionários de ontem e de hoje” [9]. Uma espiritualidade trinitária (DA 240). Um impulso para a nova evangelização (DA 307). Em resumo, uma espiritualidade de comunhão (DA 368).

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert
Endereço do autor: Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041
88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com


[1]  Cf. BOROBIO, D. (org.) – A Celebração na Igreja vol. I, São Paulo, Loyola, 1990, p.428.

[2]  Cf. ibidem, p. 430.

[3]  Cf. CHUPUNGCO, A. – Liturgias do futuro, São Paulo, Paulinas, 1992, p. 33.

[4]  Cf  CHUPUNGCO, A. – ibidem, p. 38.

[5]  Cf. CHUPUNGCO, A. – ibidem, p. 44.

[6]  Cf. GRILLO, A. – Liturgia, epifania da Palavra de Deus na SC e nos outros documentos do Concílio Vaticano II, palestra proferida no Seminário Nacional de Liturgia, Itaici, São Paulo, 31 de janeiro a 04 de fevereiro de 2012, Texto 3, p. 11.

[7]  Cf. FLORES, J. J. – Introdução à teologia litúrgica, São Paulo, Paulinas, 2006, p. 56.

[8]  Cf. BOROBIO, D. – Celebrar para viver, São Paulo, Loyola, 2009, p. 33.

[9]  Cf. ARNAIZ, J.M. – in AMERINDIA (org.) – Conferência de Aparecida: Renascer de uma esperança, São Paulo, Paulinas, 2008, p. 209.

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