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III. DEI VERBUM – INSPIRAÇÃO E VERDADE

Abordamos, no artigo anterior, vários conceitos fundamentais para entender o ensinamento conciliar sobre a Palavra de Deus. Antes de tudo, procuramos explicar a relação entre Tradição e Escritura, mostrando que esta se insere na corrente daquela. De fato,  a Tradição, isto é, a transmissão oral da divina Revelação, precede a Escritura e a segue, norteando-se por ela e continuando até hoje. Vimos também que a destinatária do “depósito da Fé”, contido na Tradição e na Escritura, é a Igreja, “povo santo de Deus unido a seus pastores”. E que o ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus, “escrita ou transmitida”, não cabe a cada um individualmente, mas ao “Magistério vivo da Igreja”, que o exerce em nome de Jesus Cristo. O “Magistério”, porém, “não está acima da palavra de Deus, mas a seu serviço”, e por isso não deixa de ser também “Igreja discente”. Finalmente, lembramos o “tripé” inseparável, sobre o qual se apoia a interpretação católica do conteúdo da divina Revelação: a Tradição, a Escritura, e o Magistério da Igreja, os quais estão de tal modo entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem os outros.

Chegamos, assim, ao capítulo III da “Dei Verbum”, que aborda o dogma da Inspiração divina da Sagrada Escritura e a sua Interpretação. Ou, como diz o subtítulo, “estabelece-se o fato da Inspiração e da Verdade da Sagrada Escritura”.

1. O conceito de “Inspiração”

Primeiro, entendamos o próprio conceito de “Inspiração”, que é o ato de inspirar, insuflar, normalmente atribuído ao “espírito”: se com maiúscula, “Inspiração” é a ação do Espírito Santo. Como tal, como “ação do Espírito Santo”, podemos entendê-la de modo amplo. Nesse caso, é sua ação na criação e na história, desde o princípio do mundo, como o indica o livro do Gênesis: “O espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2). Na própria Bíblia encontramos também muitas referências à ação do Espírito nos Juízes e nos Profetas e, de modo especial, no Senhor Jesus e na sua Igreja. Essa ação do Espírito é às vezes chamada de “unção”, como em Is 61,1 e Lc 4,18: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu…” Mas a “inspiração” que focalizamos aqui, em relação à Bíblia, mesmo se precedida da inspiração profética, é a inspiração escriturística, isto é, a inspiração dos livros bíblicos que constituem o cânon. E este, por sua vez, é a lista daqueles livros que a Igreja reconhece como inspirados. Mas então, só os livros da Bíblia são “inspirados”? Que dizer de tantos outros escritos religiosos, não só cristãos mas também de outras religiões, de tantos escritos cheios de valores humanos, se não explicitamente religiosos, nas várias línguas e culturas do mundo ao longo dos séculos, desde que a humanidade começou a expressar-se por escrito?

Nada disso é inspirado? Ou tudo isso é também inspirado?

A resposta se encontra na distinção feita acima: escritos reconhecidos como inspirados, dogmaticamente, são só os escritos canônicos, isto é, incluídos no “cânon” bíblico, num total de 46 livros do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento, que constituem a Bíblia, livro sagrado para judeus e cristãos. A propósito, a palavra “Bíblia” vem do grego e significa literalmente   “ livros”, correspondendo ao fato de que é “um” livro constituído de muitos, uma pequena biblioteca. Os inúmeros outros livros, quer cristãos, quer judeus, quer de outras religiões e culturas, cujo conteúdo o senso comum reconhece como bom e verdadeiro, são também, a seu modo, “inspirados”, isto é, produzidos sob a ação do Espírito de Deus que renova todas as coisas (Sl 104,30) e que, “abrangendo todo o universo, tem conhecimento de cada som” (Sb 1,7). E o documento conciliar Nostra Aetate, sobre o diálogo interreligioso, reconhece que, as doutrinas e ritos de outras religiões  – portanto, também, seus livros sacros – “não raro refletem lampejos daquela Verdade que ilumina todos os homens” (NA 2).

2. O fato da Inspiração

Depois de relembrar que “as coisas divinamente reveladas” que estão na Bíblia “foram consignadas sob a inspiração do Espírito Santo”, a Dei Verbum explica: “Pois a Santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, tem como sagrados e canônicos os livros completos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor e, nesta sua qualidade, foram confiados à mesma Igreja” (DV 11, 1ª alínea). Por que é que o Concílio fala em “livros completos”, “com todas as suas partes”? É porque desde a Reforma, no século XVI, os protestantes passaram a excluir 7 livros do Antigo Testamento, os chamados “dêuterocanônicos”, que não se encontram na Bíblia judaica, assim como “partes” de Daniel e de Ester, pelo mesmo motivo. Os mencionados 7 livros são os seguintes: Tobias, Judite, 1º e 2º Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc. Entretanto, esses livros haviam sido reconhecidos pela cristandade inteira, até a Reforma, porque faziam parte do texto integral da Bíblia grega. Ora, foi esta o texto reconhecido pelos autores do Novo Testamento, todo ele escrito em grego.

3. Deus, “autor”; homens, “autores”

Se Deus é o “autor” da Bíblia, como é que seres humanos são, também, “autores”? Responde-nos o Concílio: “Na redação dos livros sagrados Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse” (DV 11, 1ª alínea). A afirmação de que Deus é o “autor” da Bíblia não implica, porém, que ela tenha sido ditada por ele, como os muçulmanos creem a respeito da sua “Bíblia”, o Alcorão, nem muito menos que ela tenha sido trazida do céu, como o livro dos mórmons. Deus é o “autor” no sentido de que foi Ele quem escolheu e inspirou os autores humanos, verdadeiros autores literários, como que acomodando-se às “faculdades e capacidades” de cada um deles. Além disso, esses autores não eram “ilhas”, mas membros de uma comunidade, inseridos em determinado ambiente cultural e linguístico, sendo de certo modo portavozes desse ambiente e dessa comunidade. Assim inseridos é que eles escreveram, “tudo e só aquilo” que Deus quis que escrevessem.

4. A Bíblia não erra?

Se Deus é o “autor” da Bíblia, segue-se, logicamente, que a Bíblia é um livro “verdadeiro”, ou mesmo, “inerrante”, “infalível”. Acontece que seus autores, como seres humanos, mesmo inspirados, não são “infalíveis”… Ou são? De que maneira? Respondem-nos os Padres conciliares: “Já que tudo, o que os autores inspirados afirmam, deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, deve-se professar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus em vista da nossa salvação quis que fosse consignada nas Sagradas Escrituras”. E, logo a seguir, citam a palavra de Paulo a seu discípulo Timóteo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para instruir na justiça…” (2Tm 3,16; DV 11, 2ª alínea). Portanto, sendo “divinamente inspirada”,  a Bíblia é, sim, segundo a constante fé da Igreja, “infalível” ou “inerrante”. Segundo o Concílio, porém, não o é em cada afirmação isolada. Ela nos ensina “sem erro” a “verdade de salvação”, isto é, aquela verdade “que Deus quis que fosse consignada na Escritura em vista da nossa salvação”. Aqui, então, cabe a pergunta: Qual é essa “verdade”? Como identificá-la?

5. A verdade da Bíblia

Nesse ponto da “verdade da Bíblia”, ou seja, a “verdade salvífica”, o Concílio deu um passo de enorme importância, e que custou muitos debates, acesas discussões, chegando ao consenso apenas na última sessão. Superou-se o conceito da “inerrância absoluta”, que tanta dificuldade causava, e causa ainda, diante das inexatidões históricas e científicas, e das narrativas violentas que permeiam o texto bíblico. Percebeu-se que a “inspiração” não preserva a linguagem humana das suas limitações, mas estas fazem parte da encarnação da Palavra (cf Jo 1,14), que se fez semelhante a nós em tudo, menos no pecado. É a humildade da palavra de Deus que se fez palavra humana, marcada pelas nossas inexatidões, menos pela falsidade. Mas esse assunto será retomado no próximo artigo, quando comentarmos DV 12, sobre a interpretação da Escritura.

Pe. Ney Brasil Pereira,
Professor de Exegese Bíblica na Facasc/Itesc
Email: ney.brasil@itesc.org.br

Para refletir:

  1. O que é a “inspiração”, num sentido amplo? E a inspiração escriturística?
  2. Que é o “cânon” bíblico? Quantos livros o compõem?
  3. Como entender que Deus é o “autor” da Bíblia, se os seus autores históricos, os escritores bíblicos, são seres humanos?
  4. Segundo o Concílio, em que é que a Bíblia “não erra”?
  5. A “inspiração” preserva a linguagem humana das suas limitações?

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