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X – OS SACRAMENTOS

A constituição litúrgica afirma que os sacramentos destinam-se à santificação dos homens, para a edificação do corpo de Cristo e, enfim, para prestar culto a Deus. Não só supõem a fé, mas também a alimentam, fortificam e exprimem. Conferem a graça e dispõem os fiéis à frutuosa recepção da mesma graça (SC 59). Além disso, a Igreja instituiu os sacramentais como sinais sagrados, pelos quais, à imitação dos sacramentos, são significados efeitos principalmente espirituais, que se obtêm pela oração da Igreja (SC 60). Ambos, sacramentos e sacramentais, são fruto do mistério pascal de Cristo (SC 61).

Em seguida, a constituição comenta a necessidade de adaptações como exigência dos novos tempos (SC 62), abordando alguns temas pontuais: o problema da língua latina; a necessidade da restauração do catecumenato dos adultos; a revisão dos ritos dos diversos sacramentos; o novo enfoque para os sacramentais; a revisão do rito da consagração das virgens e dos ritos fúnebres (SC 62-81).

1. Natureza dos sacramentos

Os sacramentos são como que o coração da liturgia; constituem atos de culto a Deus em prol da santificação dos homens. Por esta razão, são instituídos por Cristo (cf. CIC 1210). Essa afirmação abre uma série de interrogações: quais as razões que levaram o Concílio Vaticano II a propor uma nova ordem sacramental? O que se entende por sacramento? Ele é realidade exclusivamente cristã? O que significa instituir um sacramento? Em que consiste a instituição por parte de Cristo? Por que sete sacramentos? Qual a relação entre sacramento e liberdade humana, sacramento e fé?

A reflexão teológica pós-conciliar propõe várias razões para se estabelecer uma nova ordem sacramental: o novo modo de relacionar-se com Deus a partir da história e da vida do homem de hoje; a renovação da cristologia e suas novas dimensões; a ação do Espírito Santo como agente do mistério de Cristo; a nova eclesiologia proposta pelo Concílio; a dimensão escatológica dos sacramentos; a renovação das ciências antropológicas; as mudanças socioculturais; o novo enfoque pastoral [1].

 Antes de considerar os sacramentos em sua ambientação tipicamente cristã, é preciso levar em consideração sua realidade antes do evento cristão, quer nas religiões dos diferentes povos, quer no contexto do Antigo Testamento. Há uma pré-história dos sacramentos, pré-figurados nos sinais sagrados das religiões primitivas e nos ritos sagrados da religião judaica [2].

Antes de analisar os sacramentos como sinais de Cristo é necessário pôr em evidência Cristo como o sinal enviado pelo Pai (Is 7,11-14; Lc 2,10-12). “Dentre os sinais-realidade do NT, o primeiro e fundamental sinal é Cristo em si mesmo, enquanto sacramento da realidade eterna que é a relação do amor de Deus ao ser humano”. [3] Jesus se proclama sinal de Deus (Jo 6,28), Paulo fala do valor do sinal Cristo como sacramento (Cl 1,27; Ef 3,3.9), como mistério (Cl 1,26; 2,2; Ef 3,4). A partir do sinal Cristo devemos entender os sinais de Cristo.

Cristo é, pois, o sacramento original, por seu ser de Filho de Deus encarnado (“O Verbo se fez carne” Jo 1,14); por sua ação messiânica, seus gestos e atitudes, seu poder salvador (“Quem me viu, viu o Pai” Jo 14,9);  por seus atos privilegiados em favor dos homens (“Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem poder na terra de perdoar pecados – disse então ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para casa” Mt 9,6). “A derivação de todas as obras–sinais do Sinal-Obra máxima salvação que é Cristo, deve ser tomada em sentido concreto: os sinais – ou seja, os sacramentos –       são concretizações parciais da realidade essencial, única e unitária, que é a vontade de salvação existente no Pai e realizada em Cristo, isto é, o Amor infinito de Deus pelo ser humano. Deus tanto amou o mundo, que lhe deu seu Filho único (Jo 3,16).” [4] Os sacramentos estão, pois, em relação direta com a Páscoa de Cristo.

Cristo, sacramento original de salvação, continua presente e atua em sua Igreja, mediante a ação contínua do seu Espírito. A principal função da Igreja é continuar celebrando no tempo a salvação escatológica de Cristo. Assim, a Igreja com seus sacramentos será o prolongamento terrestre do corpo do Senhor, o primeiro sacramento, o sacramento original.

A Igreja é, pois, o sacramento principal, histórico, da salvação de Cristo. Por seu mistério, porque nela habita o Espírito do Senhor Jesus (1Cor 3,16), porque manifesta a presença do reino de Deus (Lc 12,32; Mc 4,26-29). Tanto nos Padres da Igreja, como na liturgia e na teologia escolástica, ela é considerada admirável sacramento. Prefigurada no Antigo Testamento, é comparada, pelo Concílio, com figuras relacionadas ao reino de Deus: redil, lavoura, campo de Deus, construção, templo santo, Jerusalém celeste (cf.LG 6). A Igreja é sacramento pelo seu ser próprio, pela sua realidade de mistério (Ef 1,13-14), pelas suas atuações (At 1,8), pelos seus sinais privilegiados (Mt 28,19-20).

Ampliando o termo sacramento, podemos ainda falar na dimensão sacramental existencial do homem, como criatura de Deus, e do cristão pela sua filiação adotiva. De fato, todo homem é sinal-sacramento de Deus e de Cristo, assim como o cristão é sinal-sacramento de Cristo e da Igreja, como também se pode estabelecer uma relação sacramental com a realidade criatural-cósmica.

2. Instituição dos sacramentos

Santo Tomás de Aquino define instituição como o fato de agregar a coisas sensíveis o poder de significar e produzir a graça [5]. O Concílio de Trento definiu que Cristo é o instituidor de todos os sacramentos. Segundo os teólogos posteriores a Trento, essa definição deve ser entendida no sentido de uma instituição imediata por parte de Cristo, embora não particularizada, mas também não genérica e, sim, específica. O Catecismo da Igreja Católica resume a doutrina tradicional: “Fiéis à doutrina das Sagradas Escrituras e às tradições apostólicas (…) e ao sentimento unânime dos Padres, professamos que os sacramentos da nova lei foram todos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo” (CIC 1114).

Não se trata, pois, de procurar nas palavras de Jesus possíveis ordens que justifiquem ser ele o fundador e o fundamento, aquele que, em última análise instituiu os sacramentos. A intenção de Jesus não está em criar ritos novos, nem em determinar pormenores de seus componentes, mas, sim, em assumir ritos que já existem na revelação da antiga aliança, dando-lhes novo sentido e eficácia, deixando à Igreja apostólica, num primeiro momento, e, posteriormente, à Igreja como tal, a tarefa de desenvolvê-los. Se a Igreja apostólica assume determinados ritos – os sacramentos – como portadores de uma intenção especial de Cristo em relação à salvação – eficácia –, para nós é suficiente: podemos aceitá-los como instituídos por ele. Cristo realiza o que é realmente essencial: a eficácia salvífica. O restante, a seu modo, é relativo.

Em relação à diversidade dos sacramentos, a teologia propõe três princípios fundadores [6]. O primeiro é cristológico: Jesus se encarnou para compartilhar do ser humano em suas situações decisivas e concretas. Nele, as situações humanas se transformam em situações soteriológicas, em momentos salvíficos de referência. O segundo princípio é eclesiológico: a Igreja, cuja missão é prolongar a obra salvadora de Cristo no mundo, realiza essa missão assumindo e santificando essas situações do mundo e da vida humana. O terceiro princípio é antropológico: na diversidade de situações humano-existenciais da vida se encontra um princípio fundador da diversidade dos sinais sacramentais.

3. Septenário sacramental

Quanto ao septenário sacramental, é preciso recordar alguns elementos histórico-teológicos.

Historicamente, a formulação do septenário sacramental é resultado de uma determinação histórica da Igreja. Nos onze primeiros séculos sacramento tinha um sentido amplo. Os escolásticos, diante da necessidade de distinguir entre sacramentos da antiga aliançaeda nova aliança, como, ainda, na urgência de estabelecer a distinção entre sacramentos e sacramentais, entraram decisivamente nesta questão. A razão mais importante talvez tenha sido a aplicação aos sacramentos do simbolismo dos números. O número sete significava universalidade, plenitude, perfeição: alusão aos dons do Espírito Santo.

Doutrinalmente, o Papa Inocêncio III, em 1208, na “profissão de fé” que impõe aos valdenses, é o primeiro a falar em sete sacramentos. O Concílio de Leão, em 1274, afirma claramente que os sacramentos são sete. O Concílio de Florença, em 1439, segue a mesma doutrina. Em resposta às posições dos Reformadores, o Concílio de Trento define o septenário sacramental, embora não se possa falar em interpretação exclusivamente numérica, mas antes de fixação numérica com o objetivo de manter o horizonte qualitativo simbólico da totalidade sacramental. Os teólogos do Vaticano II afirmam não se tratar de uma definição ao número aritmético sete, mas que, de fato, são esses sete sinais sacramentais os que têm a eficácia salvadora. Portanto, segundo alguns autores, o número sete aplicado aos sacramentos não é considerado pela Igreja como absoluta e simplesmente definido.

Teologicamente, para os que se posicionam a favor da interpretação simbólica, como J. Dournes, o septenário sacramental significa o influxo do único Espírito sobre a totalidade da existência; sete simboliza, pois, a plenitude do dom divino que se entrega à totalidade do mundo criado. É o número da economia da graça. Y. Congar, por sua vez, recordando as denominações sacramentos maiores e menores dos Padres da Igreja, afirma que a Igreja sempre admitiu um conceito análogo e não unívoco a esse respeito [7].

Pe. Dr. Valter Maurício Goedert
Endereço do autor: Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC – ITESC
Caixa Postal 5041
88040-970 – Florianópolis – SC
E- mail: goedertvalter@hotmail.com


[1] Cf. BOSOBIO, D. – A celebração na Igreja, Vol. 1, São Paulo, Loyola, 1990, pp. 288-290.

[2] Cf. MARSILI, S. – Sinais do Mistério de Cristo, São Paulo, Paulinas, 2010, pp. 26ss.

[3] Cf. MARSILI, S. – ibidem, p. 56.

[4]  Cf. MARSILI, S. – ibidem, p. 88.

[5]  Cf. Tomás de Aquino, Summa Theologica, q. 64, a.2 no sed contra.

[6]  Cf. BOROBIO, D. – ibidem, pp. 350 ss.

[7]  Cf. BOROBIO, D. – ibidem, pp. 358 ss.

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