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VIII – Capítulo III: AS IGREJAS E COMUNIDADES ECLESIAIS SEPARADAS DA SÉ APOSTÓLICA ROMANA

Conhecendo o Decreto Unitatis Redintegratio

Proêmio: As divisões no Oriente e no Ocidente (UR 13)

A túnica inconsútil de Cristo está afetada por duas grandes categorias de cisões:

1. A primeira tem sua origem no Oriente, ocasionada por dois motivos:

a) contestações das fórmulas dogmáticas dos Concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451);

b) e, posteriormente, a solução da comunhão eclesiástica entre  os Patriarcados Orientais e a Sé Romana.

2. A segunda origina-se no Ocidente, a partir dos acontecimentos da Reforma (séc. XVI). A partir daí, várias Comunhões nacionais ou confessionais se separaram da Sé Romana. Algumas com separação parcial, como a Comunhão anglicana.

É necessário considerar que estas diversas divisões diferem muito entre si:

a) em razão de sua origem, lugar e tempo;

b) principalmente, pela natureza e gravidade das questões ligadas à fé e à estrutura eclesiástica.

O Concílio, tendo em vista uma prudente ação ecumênica, propõe duas grandes considerações: a primeira relacionada às Igrejas Orientais; e a segunda relacionada às Comunidades Eclesiais Separadas do Ocidente.

PARTE I: CONSIDERAÇÕES SOBRE AS IGREJAS ORIENTAIS

1. Mente e história próprias das Igrejas Orientais(UR 14)

As Igrejas do Oriente e do Ocidente, por vários sáculos, seguiram por caminhos próprios, unidas pela comunhão fraterna de fé e vida sacramental. Quando surgia algum conflito acerca da fé ou da disciplina, a Sé Romana o dirimia em comum consenso. É de grande importância para o Concílio trazer à memória o fato de que muitas Igrejas Particulares do Oriente, entre as quais sobressaem as Igrejas Patricarcais, se gloriam de ter origem nos próprios Apóstolos. Por este fato prevaleceu na história o cuidado, entre os Orientais, de conservar as relações fraternas entre as Igrejas locais na comunhão da fé e da caridade.

Do mesmo modo, desde a sua origem, as Igrejas do Oriente possuem um tesouro, do qual a Igreja do Ocidente herdou muitas coisas:

  • em liturgia,
  • em tradição espiritual;
  • em ordenação jurídica.

É importante lembrar também que os dogmas fundamentais da fé cristã sobre a Trindade e o Verbo de Deus, encarnado da Virgem Maria, foram definidos em Concílios Ecumênicos no Oriente. Para preservar esta fé, aquelas Igrejas sofreram muito e ainda sofrem.

As Igrejas do Oriente e as do Ocidente acolheram a herança deixada pelos Apóstolos de modos diferentes, explicada de várias maneiras, devido também à diversidade de gênio e diferentes condições de vida. Juntando as causas externas e também pela falta de mútua compreensão e caridade sobrevieram as separações.

É possível, no entanto, a restauração da plena comunhão entre as Igrejas orientais e a católica. Para um profícuo diálogo nesta direção, é muito importante considerar, com reta apreciação, esta peculiar condição da origem e do crescimento das Igrejas do Oriente e da índole das relações entre elas e a Sé Romana antes da separação.

2. A Tradição litúrgica e espiritual dos Orientais(UR 15)

Com o grande amor com que os cristãos orientais realizam suas liturgias, especialmente “com a celebração da Eucaristia do Senhor em cada uma destas Igrejas particulares, a Igreja de Deus é edificada e cresce” (São João Crisóstomo). E pela concelebração manifesta-se a comunhão entre estas Igrejas. A celebração eucarística caracteriza-se como:

  • fonte da vida da Igreja e
  • penhor da futura glória.

Em unidade com o Bispo, os fiéis pela celebração da Eucaristia:

  • têm acesso a Deus Pai mediante o Filho, Verbo encarnado, morto e glorificado na efusão do Espírito Santo;
  • conseguem, portanto, a comunhão com a Santíssima Trindade;
  • tornam-se “participantes da natureza divina” (2Pd 1,4).

Os Orientais neste culto litúrgico engrandecem, com belíssimos hinos, a sempre Virgem Maria, solenemente proclamada Mãe Santíssima de Deus pelo Concílio de Éfeso. Reconhece-se, assim, a Cristo como Filho de Deus e Filho do Homem, conforme as Escrituras. Cantam hinos também a muitos santos, entre os quais Padres da Igreja universal.

As Igrejas Orientais celebram verdadeiros sacramentos. Pelo Sacerdócio e a Eucaristia unem-se de maneira especial com a Igreja católica, em virtude da sucessão apostólica. Portanto, a comunicação nas coisas sagradas não só é possível, mas até aconselhável, com a aprovação da autoridade eclesiástica.

Encontram-se no Oriente ricas tradições espirituais expressas, especialmente, pelo monaquismo que se difundiu para o Ocidente e tem sido fonte e vigor para a vida religiosa dos latinos. Aos católicos recomenda-se vivamente que se acheguem com frequência às riquezas espirituais dos Padres do Oriente, pois elas elevam o ser humano à contemplação das coisas divinas.

Devido à máxima importância do riquíssimo patrimônio litúrgico e espiritual do Oriente, é necessário:

  • conhecê-lo,
  • venerá-lo,
  • conservá-lo e
  • fomentá-lo.

Esta máxima importância justifica-se porque este patrimônio é fundamental para:

  • guardar com fidelidade a plenitude da tradição cristã e
  • realizar a reconciliação dos cristãos orientais e ocidentais.

3. Disciplina própria dos Orientais (UR 16)

As Igrejas Orientais sempre seguiram disciplinas próprias sancionadas pelos Santos Padres e Sínodos. A diversidade de costumes e usos, longe de impedir a unidade da Igreja, muito contribuem para que a mesma cumpra sua missão. Por isso, para tirar toda a dúvida, o Concílio declara que as Igrejas do Oriente têm a faculdade e de se governar segundo suas próprias disciplinas, visando atender ao bem dos fiéis. A observância deste tradicional princípio da legítima diversidade é condição prévia indispensável para a restauração da unidade.

4. Índole própria da Teologia dos Orientais (UR 17)

A legítima diversidade está relacionada com a diversidade na enunciação teológica das doutrinas. O Oriente e o Ocidente, no estudo da verdade revelada, se serviram de métodos e modos diferentes para conhecer e exprimir os mistérios divinos. Por isso, às vezes alguns aspectos deste mistério são captados e postos em melhor luz por um que por outro. Assim, as fórmulas teológicas, em vez de se oporem, mutuamente se completam.

Os Padres Conciliares reconhecem as autênticas tradições teológicas do Oriente, atribuindo-lhes cinco características:

  1. estão radicadas nas Sagradas Escrituras;
  2. são alimentadas e expressas na vida litúrgica;
  3. são nutridas pela viva tradição apostólica e pelos escritos dos Padres Orientais e dos autores espirituais;
  4. promovem a instituição reta da vida cristã;
  5. tendem a uma plena visão da verdade cristã.

A Igreja Católica possui numerosos filhos orientais que custodiam este patrimônio e já vivem em plena comunhão com os irmãos que cultivam a tradição ocidental. Agradecendo a Deus por este fato, o Concílio declara que todo este patrimônio espiritual e litúrgico, disciplinar e teológico, em suas diversas tradições, faz parte da plena catolicidade e apostolicidade da Igreja.

Conclusão (UR 18)

O Concílio Vaticano II, em sintonia com o que foi declarado pelos Concílios anteriores e pelos Pontífices romanos, reafirma a convicção expressa já na Assembleia de Jerusalém (ano 49): para restaurar e conservar a comunhão e a unidade é preciso “não impor nenhum outro encargo além do necessário (At 15,28).

Os vários institutos e formas de vida da Igreja são convocados a envidar todos os esforços para uma gradual concretização desta unidade:

  • através da oração, principalmente;
  • através do diálogo fraternal em torno da doutrina e das mais urgentes necessidades pastorais de nosso tempo.

Os pastores e fiéis da Igreja católica são incentivados, no espírito de caridade, a cultivar boas relações com aqueles que já não vivem no Oriente, longe da pátria, para que cresça a colaboração fraterna.

Esta causa, assumida com todo o entusiasmo, demolirá a parede que divide a Igreja ocidental da oriental. Que se faça uma única mansão, alicerçada na pedra angular, Jesus Cristo, que fará de ambas uma só, conforme já declarara o Concílio de Florença (1439).

Celso Loraschi 
E-mail: loraschi@itesc.org.br

Um comentário em “VIII – Capítulo III: AS IGREJAS E COMUNIDADES ECLESIAIS SEPARADAS DA SÉ APOSTÓLICA ROMANA

  1. Há algum documento do Concílio Vaticano Segundo que traz algumas reflexões sobre a Santíssima Trindade?

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