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IX – Capítulo III: IGREJAS E COMUNIDADES ECLESIAIS SEPARADAS NO OCIDENTE

O capítulo III do Decreto Unitatis Redintegratio trata das “Igrejas e Comunidades Eclesiais separadas da Sé Apostólica Romana”. A primeira parte deste capítulo, como já foi apresentada, tratou das “considerações sobre as Igrejas Orientais”. A segunda parte, na qual vamos nos debruçar agora, refere-se às “Igrejas e Comunidades Eclesiais separadas no Ocidente”.

1. As condições próprias das Comunidades separadas (UR 19)

No Ocidente, a separação de Comunidades Eclesiais da Sé Apostólica de Roma, iniciou-se no

final da Idade Média e estendeu-se nos séculos posteriores. No entanto, devido à comunhão eclesiástica nos séculos anteriores, estas Comunidades continuam ligadas à Igreja Católica por uma peculiar afinidade e obrigação, apesar de possuírem origens e convicções diferentes em matéria de doutrina e de vida espiritual.

O movimento ecumênico e a aspiração pela paz não possuem ainda a mesma força em todas estas Comunidades. Esta constatação, porém, não abafa a esperança de que cresçam, pouco a pouco, em todas elas, o diálogo ecumênico e a mútua estima. As consideráveis discrepâncias entre estas Igrejas e Comunidades e a Igreja Católica são de diversas índoles:

  • de índole histórica;
  • de índole sociológica;
  • de índole psicológica;
  • de índole cultural;
  • e, sobretudo, de interpretação da verdade revelada.

2. Pontos fundamentais para o diálogo ecumênico

As discrepâncias, no entanto, não podem impedir o diálogo ecumênico rumo à unidade querida por Cristo. Alguns pontos podem e devem ser o fundamento e o encorajamento deste diálogo. É o que se expõe a seguir.

1.1 – A Confissão em Cristo (UR 20)

Primeiramente consideram-se os cristãos que, para a glória de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo -, abertamente confessam Jesus Cristo como Deus e Senhor e único mediador entre Deus e a humanidade. Existem discrepâncias significativas com respeito à doutrina da Igreja Católica sobre:

  • Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado;
  • a obra da redenção;
  • o mistério e o ministério da Igreja;
  • e a função de Maria na obra da salvação.

Contudo, constata-se com alegria, que os irmãos de outras Igrejas e Comunidades tendem para Cristo como fonte e centro da comunhão eclesiástica. No desejo de viverem unidos a Cristo, sentem-se sempre mais impulsionados a buscarem a unidade e a testemunharem a sua fé entre todos os povos.

1.2 – O estudo da Sagrada Escritura (UR 21)

Os irmãos de outras Igrejas e Comunidades cristãs revelam um grande amor e veneração pelas Sagradas Escrituras. Dedicam-se constante e cuidadosamente ao estudo da Bíblia. De fato, Paulo diante dos cristãos de Roma testemunha com firmeza: “Eu não me envergonho do Evangelho, pois ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu primeiro, mas também do grego” (Rm 1,16). Nas Sagradas Escrituras, sob a invocação do Espírito Santo, procuram a Deus, que lhes fala em Cristo prenunciado pelos profetas, Verbo de Deus que por nós se fez carne. Nelas contemplam a vida de Cristo, o divino Mestre, seus ensinamentos e suas obras para a salvação da humanidade, especialmente o mistério de sua morte e ressurreição.

Ao afirmar a autoridade divina da Sagrada Escritura, os cristãos de outras Igrejas e Comunidades pensam diferentemente da Igreja Católica no que se refere à relação entre a Escritura e a Igreja. A fé católica expressa a convicção de que o magistério autêntico tem lugar peculiar na exposição e pregação da Palavra de Deus na Bíblia. Os diferentes pensamentos, no entanto, não impedem de acolher as Sagradas Escrituras como instrumentos exímios para o diálogo em vista da unidade apresentada pelo nosso Salvador.

1.3 – A vida sacramental (UR 22)

O Sacramento do Batismo, conferido conforme a instituição do Senhor Jesus e recebido com a devida disposição interior, confere a incorporação a Cristo crucificado e glorificado, bem como regenera o ser humano para a participação íntima na vida divina: “No batismo, fostes sepultados com ele, com ele também fostes ressuscitados, pela fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2,12). Na carta aos Romanos, Paulo acrescenta: “Assim também nós vivamos uma vida nova, pois se fomos, de certo modo, identificados a ele por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,4-5).

Sendo assim, o Batismo constitui o vínculo sacramental que liga todos os que foram por ele regenerados. Porém, é apenas o início. A partir do Batismo:

  • tende-se à consecução da plenitude de vida em Cristo;
  • ordena-se à completa profissão de fé,
  • à incorporação íntegra no instituto da salvação tal como Cristo quis,
  •  e à inserção total na comunhão eucarística.

A Igreja Católica crê que os irmãos de outras Igrejas e Comunidades não tenham conservado a unidade proveniente do Batismo; crê também que não tenham conservado a genuína e íntegra substância do Mistério Eucarístico, especialmente pela falta do sacramento da Ordem. Contudo, reconhece que os irmãos, quando na Ceia fazem a memória da morte e ressurreição do Senhor, confessam significada a vida na comunhão de Cristo e esperam sua vinda gloriosa. Por isso, no processo ecumênico é necessário que se tome como objeto de diálogo:

  • a doutrina sobre a Ceia do Senhor,
  • a doutrina sobre os outros Sacramentos,
  • e sobre os ministérios da Igreja.

1.4 – A vida com Cristo (UR 23)

Como exposto acima, os irmãos de outras Igrejas e Comunidades alimentam e fortalecem a sua vida cristã:

  • pela sua fé em Cristo,
  • pela graça do Batismo,
  • e pela audição do Verbo de Deus.

Eles manifestam sua vida cristã através:

  • da oração particular,
  • da meditação bíblica,
  • da vida familiar cristã,
  • do culto na comunidade congregada para o louvor de Deus, no qual percebem-se notáveis elementos da antiga liturgia comum.

Diante do testemunho de fé e de vida cristã dos irmãos de outras Igrejas e Comunidades, os participantes do Concílio ainda ressaltam três pontos:

  1. Sua fé em Cristo produz frutos de louvor e ação de graças pelos benefícios recebidos de Deus.
  2. Entre eles, há um vivo sentido de justiça e uma sincera caridade para com o próximo.
  3. Esta fé ativa produziu muitas instituições:
    • para aliviar a miséria espiritual e corporal;
    • para promover a educação da juventude;
    • para tornar mais humanas as condições sociais da vida,
    • e para estabelecer a paz por toda parte.

No que se refere aos assuntos morais, os irmãos nem sempre entendem o Evangelho do mesmo modo que os católicos, bem como admitem as mesmas soluções para as difíceis questões sociais de nosso tempo. No entanto, querem como nós aderir à Palavra de Cristo como fonte de virtude cristã e obedecer a este preceito: “Tudo quanto fizerdes por palavra ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças a Deus Pai por ele” (Cl 3,17). Decorre daí a convicção de que a aplicação moral do Evangelho pode constituir-se no ponto de partida para o diálogo ecumênico.

Celso Loraschi
loraschi@itesc.org.br

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