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IV – “AGGIORNAMENTO” – TAMBÉM HOJE, NO ESPÍRITO DO CONCÍLIO

Se nossa atenção, ao relermos, com olhos de cinquenta anos depois, o Documento Perfectae Caritatis sobre a “Atualização da Vida Religiosa”, foi voltada à incidência, repetida e constante, dos termos renovação, adaptação, atualização, merece destaque o fato de que tal recomendação não aparece uma única vez nos capítulos que tratam dos votos religiosos.

Referência aos votos e outras características

Fala-se, sim, do conteúdo e da abrangência dos conselhos evangélicos, cuja observância caracteriza essencialmente essa opção de vida cristã, como temos observado anteriormente, mas as referências são de forma tal que apenas confirmam o que é próprio da sua vivência no concreto cotidiano. Talvez a adaptação recomendada esteja implícita em alguns dizeres que expressam realidades desejáveis no dia a dia da vida de comunidade, mas quiçá não tão comuns no concreto real.

Assim, falando da “pobreza”: sinta-se cada qual sujeito à lei comum do trabalho (PC 1255), ou também, em relação à vida temporal e às obras: evitem toda manifestação de luxo, de lucro imoderado e de acúmulo de bens (PC 1258); em relação à “castidade”, recomendando que não se decidam a fazer essa profissão, nem a ela sejam admitidos, sem a devida madureza psicológica e afetiva (PC 1252); no tocante à “obediência”, os superiores escutem de boa vontade os confrades e promovam sua cooperação (PC 1261).

Outra característica da vida religiosa consagrada é a vida comum. Tendo presente a distinção entre Irmãs coristas e conversas, que marcou muitas congregações femininas, especialmente de fundação mais antiga, é peremptória a recomendação de que: deve cuidar-se que nos institutos femininos se chegue a uma única categoria de irmãs (Pc 1264).

Quando o documento fala da formação dos membros, voltam a aparecer as palavras-chave de que fazemos menção ao longo deste trabalho:  Para que a adaptação às exigências do nosso tempo não permaneça meramente externa, […] sejam (os membros) convenientemente informados […] a respeito dos costumes em voga na hodierna vida social (PC 1270). Em relação às obras, cuja conservação é recomendada, mas, em vista da utilidade da Igreja: adaptem-nas às necessidades dos tempos e lugares (PC 1274). Também o espírito missionário se adapte às condições hodiernas (PC 1275).

Finalmente, o Documento conclui as suas recomendações com um apelo à coerência das instituições que oferecem aos seus membros esse gênero de vida, que o Sacro Sínodo reconhece ter em alto apreço: Os institutos, para os quais se estabelecem estas normas de atualização, respondam com disponibilidade de espírito à sua vocação divina e à sua tarefa na Igreja de nossos tempos (1283).

Resumindo

O que conseguimos apresentar não foi mais do que uma releitura, mesmo pobre e, até certo ponto, superficial, do próprio documento em questão. Nosso objetivo foi mostrar como o Decreto insiste, clara e explicitamente, na necessidade, então fortemente sentida pelos padres conciliares de todo o mundo, de um corajoso processo de atualização, adaptação, renovação da vida consagrada – processo sempre atual e necessário, também hoje, em relação às realidades do nosso tempo, expresso na palavra mágica de João XXIII: Aggiornamento!

Consequências das recomendações conciliares

Como no caso do primeiro documento conciliar aprovado, a Constituição Sacrosanctum Concilium, também as consequências do Decreto Perfectae Caritatis, aqui refletido, foram, em primeiro lugar, concretas e visíveis. Se na Liturgia foi o uso da língua vernácula, a Missa versus populum, a mesa do altar no centro do presbitério, e tantos outros aspectos visíveis que foram sendo vistos como “frutos do Concílio”, também na vida religiosa, sobretudo feminina, as adaptações mais percebidas e entendidas como “obediência ao Concílio” foram, sem dúvida, as mudanças e simplificações dos hábitos religiosos, a maior abertura dos conventos, da clausura e dos estilos de vida, a maior presença no meio do povo.

Os padres conciliares sabiam que as recomendações de renovação e adaptação mexeriam com as bases da aparente “paz estrutural” das instituições religiosas.  Daí, a permissão e recomendação de experiências diversas, de moradias e inserções em ambientes não usuais, até mesmo de Constituições e Normas ad experimentum, por um determinado tempo, elaboradas nos Capítulos de renovação, que deveriam seguir-se à conclusão do Concílio. O modo e a urgência de aderir às mudanças e adaptações variaram muito, como sabemos, nos diversos institutos e, mesmo, no interior das comunidades.

Quem viveu a época abençoada do Concílio e pós-Concílio sabe também dos conflitos gerados em comunidades e instituições, do mesmo modo, aliás, como na Igreja toda, pelos choques entre quem resistia às mudanças e quem se impacientava pela ânsia de concretizá-las. É uma situação de consequência certamente não desejada, assim, pelo Concílio, mas que, mais ou menos velada ou abertamente, perdura até hoje: o confronto entre as duas alas, conhecidas como dos tradicionalistas, que se propõem zelar pela manutenção da antiga ordem, ou a ela retornar quanto possível, e dos progressistas, que defendem, por vezes também drasticamente, a nova ordem, de mais liberdade e abertura em relação a aspectos acidentais das estruturas, tanto conventuais quanto eclesiais.

50 anos do início do Concílio! 50 anos de Aggiornamento, na fidelidade histórica ao carisma dos fundadores e fundadoras das Congregações religiosas de todos os tempos.

                                                                                                            Ir. Clea Fuck
                                                                                                                 Irmã da Divina Providência
E-mail: ir.clea@gmail.com

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