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V. DEI VERBUM – O ANTIGO TESTAMENTO

Já vimos, até aqui, os três primeiros capítulos do documento conciliar que estamos estudando: o primeiro capítulo, sobre “a Revelação como tal”; o segundo, sobre “a transmissão da Divina Revelação”; e o terceiro, sobre “a Inspiração divina da Sagrada Escritura e sua Interpretação”. O capítulo quarto, que agora veremos, aborda o “Antigo Testamento”. A propósito, tem-se vulgarizado ultimamente a designação de “Primeiro” Testamento, em vez de “Antigo”, por motivos alegadamente ecumênicos. Acontece que a contraposição entre “Antigo” e “Novo” não é invenção pós-bíblica, mas se encontra explicitamente no próprio “Antigo Testamento”, no famoso texto de Jeremias sobre a “Nova” Aliança. E esta,  exatamente por ser “nova”, é anunciada contrapondo-se à “Antiga” (Jr 31,31). Para nós, cristãos,  essa contraposição está claramente afirmada na segunda carta aos coríntios (2Cor  3,6.14) e, com insistência, na carta aos hebreus (Hb 8,6-7.13), além de ser proclamada pelo próprio Senhor, na sua palavra sobre  “o cálice da Nova Aliança” (1Cor 11,25). Mas retornemos à Dei Verbum.

1)    A história da Salvação

Sintetizando o conteúdo dos livros do Antigo Testamento, os Padres conciliares começam recordando como Deus, “ao buscar e preparar a salvação de toda a humanidade, escolheu para si um povo, ao qual queria confiar as suas promessas. Contraída a aliança com Abraão e, através de Moisés, com esse mesmo povo, revelou-se por palavras e ações como o único Deus verdadeiro…” (cf DV n.14, no início). Ainda no mesmo parágrafo aparece a expressão “economia da salvação”, que significa o processo, a “história”, da realização do plano salvífico de Deus. Os Padres conciliares continuam: Essa “economia”, “prenunciada, narrada e explicada pelos autores sagrados – narradores, legisladores, sábios, profetas – encontra-se como verdadeira palavra de Deus nos livros do Antigo Testamento”. Por isso, “esses livros, divinamente inspirados, conservam  para nós um valor perene”.

2)    Valor perene do Antigo Testamento

Quanto a esse “valor perene”, não devemos esquecer  que, enquanto se redigiam os atuais livros do Novo Testamento, a Bíblia era constituída só pelos livros do Antigo Testamento, aos quais os apóstolos  se referiam como “as Escrituras”, as únicas que havia. Ao lado delas, porém, e levando-as à perfeição (cf Mt 5,17), eles proclamaram a Palavra do Senhor Jesus, em cartas e evangelhos que aos poucos constituíram o “Novo Testamento”. Completado este, veio a proposta de alguns, em meados do século II, de abandonar de vez o Antigo Testamento. Mas essa proposta não prevaleceu, pois a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, percebeu que  é impossível entender o Novo Testamento sem o Antigo, e toda a espiritualidade do próprio Senhor Jesus e dos Apóstolos está profundamente enraizada nos livros do Antigo Testamento.

3)    Coisas imperfeitas e transitórias

Uma das afirmações mais surpreendentes da Dei Verbum é a que encontramos no  n. 15 do capítulo que estamos estudando, no qual os Padres conciliares, ao falarem do caráter “preparatório” do Antigo Testamento, assim dizem, textualmente: “Esses livros, embora contenham também coisas imperfeitas e transitórias, manifestam contudo a verdadeira pedagogia divina” (DV n.15). Quais seriam essas “coisas imperfeitas”? Por exemplo, a violência e crueldade de tantas passagens? E “coisas transitórias”? As inúmeras prescrições rituais, relativas aos sacrifícios? Tudo isso, porém, “manifestando  verdadeira pedadogia” da parte de Deus, incansável em educar o seu povo. A propósito, essas “coisas imperfeitas” nos advertem que a Bíblia não é, em si, um “livro edificante”, como o é a “Imitação de Cristo”. É um livro realista. Que propõe, sim, a fé em Deus, mas não esconde, antes, expõe o pecado humano.

4)    Um vivo senso de Deus

Bela síntese do Antigo Testamento é a que nos propõem os Padres Conciliares nesta  afirmação: “Por isso” – porque esses livros “manifestam a pedagogia divina” – eles “devem ser  devotamente recebidos pelos cristãos”, pois “exprimem um vivo senso de Deus”. E explicam: Eles “contêm sublimes ensinamentos sobre o próprio Deus, e uma salutar sabedoria concernente à vida do ser humano e, ainda, admiráveis tesouros de preces, nos quais está latente o mistério da nossa salvação” (DV n.15, no final). Quanto ao testemunho sobre Deus, cuja presença encontra-se em cada página da Bíblia, penso dever ressaltar-se a primeira afirmação do livro do Gênesis: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1). A aceitação de um Deus criador é a base da nossa cosmovisão de fé. Quanto à “sabedoria”, encontramo-la concentrada nos livros sapienciais, a começar dos Provérbios. Finalmente, os “tesouros de preces” são os que estão à nossa disposição no Livro dos Salmos.

5)    Unidade dos dois Testamentos

O capítulo IV encerra-se com um breve mas denso parágrafo sobre a “unidade dos dois Testamentos”, de ambos os quais “o mesmo Deus é inspirador e autor”. Essa unidade se manifesta no fato de que, como o observou Santo Agostinho, “o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo Testamento se tornou patente no Novo”. A propósito, os Padres conciliares explicam: “Com efeito, embora Cristo tenha fundado a Nova Aliança no seu sangue (cf 1Cor 11,25), contudo, os livros todos do Antigo Testamento, recebidos íntegros na pregação evangélica, alcançam e manifestam seu sentido completo no Novo Testamento (cf Mt 5,17), e por sua vez o iluminam e explicam” (DV n.16). Isto é, os livros do Antigo Testamento, para nós, cristãos, embora alcancem seu sentido completo no Novo, este, por sua vez, precisa ser iluminado e explicado pelo Antigo.

Pe. Ney Brasil Pereira,
Professor de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC
email:
ney.brasil@itesc.org.br

Para refletir:

  1. Que dizer da nova designação de “Primeiro” e “Segundo” Testamento?
  2. Por que é que o Antigo Testamento não foi eliminado pelo Novo, e continua a ter valor para nós, cristãos?
  3. Como entender as “coisas imperfeitas e transitórias” do Antigo Testamento?
  4. Qual a importância, decisiva, da primeira frase da Bíblia?
  5. Que significa a “latência” do Novo Testamento no Antigo, e a “patência” do Antigo Testamento no Novo?

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