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VI. DEI VERBUM – O NOVO TESTAMENTO

Tendo, no capítulo quarto,  reafirmado o “valor perene” do Antigo Testamento, a Dei Verbum passa a abordar o Novo Testamento. É o capítulo quinto, cujo primeiro parágrafo (DV n.17) começa afirmando que “a palavra de Deus, ‘força divina para a salvação de todo aquele que crê’ (Rm 1,16), é apresentada e manifesta seu vigor de modo eminente nos escritos do Novo Testamento”. A razão dessa “eminência” está explicitada de maneira insuperável no início da carta aos hebreus: “Tendo Deus falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais, pelos profetas, nestes tempos que são os últimos, falou-nos pelo Filho” Hb 1,1). De fato, o Novo Testamento nos traz exatamente esta Palavra definitiva que é o próprio Senhor Jesus: sua vida, ensinamento, atividade, paixão, morte, ressurreição. Traz-nos também o testemunho dos seus santos Apóstolos e Profetas, aos quais, no Espírito Santo, foi revelado este mistério (cf Ef 3,4-6):  e eles, cumprindo a ordem do Senhor, proclamaram o Evangelho a todas as nações e congregaram a Igreja. Ora, segundo os Padres conciliares, “os escritos do Novo Testamento são o testemunho perene e divino destas coisas” (DV n.17).

1. Como surgiu o Novo Testamento

Jesus não deixou nada escrito. Apenas ordenou a seus discípulos que fossem “por todo o mundo, anunciando o evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), e sendo suas testemunhas “a começar de Jerusalém, da Judéia, da Samaria,  até os confins da terra” (At 1,8). Esse anúncio do Evangelho foi feito, inicialmente, de forma oral. Mas logo começaram a surgir coletâneas de ensinamentos e milagres do Senhor. O próprio  São Lucas, no início do seu evangelho, observa que “muitos tentaram”, antes dele, “escrever sobre o que se referia a Jesus” (Cf Lc 1,1). Não chegaram a nós esses primeiros escritos. O primeiro documento datável que temos, do Novo Testamento, é a primeira carta de São Paulo aos tessalonicenses. Os entendidos informam que ela foi escrita no ano 51, isto é, uns 20 anos após a morte e ressurreição do Senhor. Seguiram-se várias outras cartas do mesmo Apóstolo, o qual, porém, se concentrou no anúncio do “querigma”, isto é, a proclamação de que Jesus, crucificado e ressuscitado, é o Filho de Deus e Salvador. Paulo não dava, portanto, outras informações sobre o Senhor. Os evangelhos, a começar de Marcos, por volta do ano 65, vieram preencher esta lacuna, relatando os ensinamentos e milagres de Jesus, desde o seu Batismo por João, até a sua paixão e ressurreição.

2. Primazia dos Evangelhos

“Evangelho” é uma palavra que vem do grego e significa, literalmente, “boa notícia”.

Para nós, cristãos,  a “boa notícia” por excelência, “o” Evangelho, no singular, é um só: o anúncio de que Jesus de Nazaré é o Senhor e Salvador. Acontece que esse único Evangelho,  proclamado oralmente por muitas pessoas, começou a ser redigido, surgindo então vários “evangelhos”, os quais, porém, não deixam de ser “o” único Evangelho, agora, porém, “segundo” Marcos, “segundo Mateus”, “segundo Lucas”, “segundo João”. A respeito deles, assim se expressam os Padres conciliares: “Ninguém desconhece que, entre todas as Escrituras, mesmo do Novo Testamento, os evangelhos gozam de merecida primazia, uma vez que constituem o principal testemunho sobre a vida e a doutrina da Palavra encarnada, o nosso Salvador” (DV n.18, 1ª alínea).

3. Origem apostólica dos Evangelhos

Quanto a seus autores, a Igreja sempre e em toda parte sustentou, e sustenta, que os quatro evangelhos têm “origem apostólica”, isto é, eles foram redigidos por apóstolos, testemunhas oculares, como Mateus e João, ou por discípulos dos apóstolos, como Lucas  e Marcos. E eles o fizeram, lembram os Padres conciliares, “sob a inspiração do Espírito Santo”, nesses seus escritos “que são o fundamento da fé, a saber, o quadriforme Evangelho, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João” (DV n. 18, 2ª alínea).

4. Historicidade dos Evangelhos

Tratando-se de testemunhas interessadas na causa, isto é, os evangelistas querem levar à fé em Jesus, poderia fazer-se a pergunta: será histórico o que eles escrevem, tanto  o que Jesus fez como o que ensinou? A essa pergunta os Padres conciliares respondem: “A Santa Mãe Igreja (…) sustentou e sustenta que os quatro evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente aquilo que Jesus, o Filho de Deus, ao viver entre os homens , realmente fez e ensinou para a eterna salvação deles, até o dia em que foi elevado ao céu (cf At,1-2)” (DV n.19, no início). A seguir,  falam da experiência pascal dos apóstolos, os quais, tendo visto o Senhor ressuscitado e tendo sido iluminados pelo Espírito Santo, receberam uma “compreensão mais plena” dos gestos e palavras do Mestre,  e é essa compreensão mais plena que eles transmitiram em sua pregação e, depois, em seus escritos.

5. Como os evangelistas escreveram

Eles, segundo os Padres conciliares, “escolheram certas coisas das muitas transmitidas ou oralmente ou já por escrito, fazendo síntese de outras ou explanando-as, segundo a situação das igrejas (…), sempre com verdade e sinceridade. De fato, seja com fundamento na própria memória, seja fundamentados no testemunho daqueles que ‘desde o começo foram testemunhas oculares e ministros da palavra’, os evangelistas escreveram com a intenção de que conheçamos ‘a verdade das coisas nas quais fomos instruídos’ (cf Lc 2-4)” (DV n.19, da metade ao fim). O que eles escreveram, portanto, é “verdade”. Isso, porém, não significa que devam ser entendidos ao pé da letra, literalmente. Como todo documento, antigo ou moderno, também os evangelhos devem ser interpretados. Para isso existe a exegese e a hermenêutica, como vimos no quarto artigo desta série, comentando a Dei Verbum n.12.

6. Os demais escritos do Novo Testamento

A seguir, no n. 20, os Padres conciliares falam do “cânon” do Novo Testamento, isto é, do conjunto dos livros que o integram, além dos quatro evangelhos. E lembram que, desse cânon, fazem parte “também as cartas de São Paulo e outros escritos apostólicos, redigidos sob inspiração do Espírito Santo”. Esses “outros escritos” são os Atos dos Apóstolos, as duas cartas de São Pedro, as três de São João, uma de São Tiago, uma de São Judas e, enfim, o Apocalipse. Quanto às cartas de São Paulo, são em número de quatorze, incluída a carta aos hebreus. “Por esses escritos – continuam os Bispos –  por um sábio desígnio de Deus, é confirmado tudo o que diz respeito ao Cristo Senhor, mais e mais se elucida a sua genuína doutrina, anuncia-se o poder salvífico da sua obra redentora,  narram-se os inícios e a admirável difusão da Igreja (cf Atos dos Apóstolos), e se prenuncia a sua gloriosa consumação (Apocalipse). (DV n.20)

Tudo isso, porque “o Senhor Jesus, conforme prometera, assistiu a seus Apóstolos (cf Mt 28,20: “Eu estou convosco todos os dias…”) e enviou-lhes o Espírito Paráclito, que deveria conduzi-los à plenitude da Verdade (cf Jo 16,13)” (DV n.20, última alínea). Que significa essa “condução à plenitude da Verdade”? Significa o crescimento da compreensão de tudo aquilo que o Senhor Jesus é, e do que ele fez e ensinou. Essa compreensão  não se esgotou no círculo dos primeiros discípulos, mas continuou a crescer até nós e continuará crescendo, pois nenhuma inteligência humana pode pretender esgotar a riqueza do Mistério. É legítimo, pois, “avançar” na compreensão, mas sem deixar de “permanecer” naquilo que nos foi transmitido. É, aliás, o que nos adverte São João, na sua segunda carta: “Todo aquele que avança, e não permanece na doutrina do Cristo, não possui a Deus” (2Jo 9).

Pe. Ney Brasil Pereira,
Professor de Exegese Bíblica na Facasc/Itesc
Email: ney.brasil@itesc.org.br

 

Para refletir: 1) Por que é que o Novo Testamento tem uma importância especial para nós?

2)Como se formou o Novo Testamento?

3) Que significa a palavra “evangelho”? e “evangelhos”, no plural? Não é um só “o” Evangelho?

4) O que é a “historicidade” dos evangelhos?  Como os evangelistas escreveram?

5) Jesus nos prometeu, em Jo 16,13: “O Espírito Paráclito vos conduzirá à plenitude da Verdade”. Que significa isso?

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