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VII. DEI VERBUM – NA VIDA DA IGREJA

Chegamos, em nossa leitura da Dei Verbum, ao seu último capítulo, que tem por título “A Sagrada Escritura na vida da Igreja”. Segundo o exegeta alemão Norbert Lohfink,  é o capítulo “mais importante e transcendental para o futuro”. Por quê? É porque nele os Padres conciliares apontam para consequências práticas da fé da Igreja nas Escrituras. Em primeiro lugar, no n. 21, sintetizam belamente essa fé, lembrando que a Igreja “sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como ao próprio Corpo do Senhor”. E explicam: “Principalmente na Sagrada Liturgia, a Igreja toma, sem cessar, da mesa tanto da palavra de Deus quanto do Corpo do Cristo, o pão da Vida, e o distribui aos fiéis” (DV n. 21, início do parágrafo). Note-se aí, portanto, a menção de “duas mesas” na Liturgia: a do ambão e a do altar,  equiparação nem sempre reconhecida, mas agora afirmada com toda a clareza. É por isso que, nas igrejas que estão sendo construídas ou restauradas, o espaço celebrativo está procurando mostrar, visualmente, a correspondência entre ambas as “mesas”: a da Palavra escrita e oral, e a da Palavra encarnada.

1. A força da palavra de Deus

A seguir, os Padres conciliares relembram: “As  Escrituras, inspiradas por Deus e consignadas por escrito de uma vez para sempre, comunicam imutavelmente a palavra do próprio Deus e  fazem ressoar, através das palavras dos profetas e Apóstolos, a voz do próprio Espírito Santo.”  É exatamente por isso que toda a pregação, a catequese, a administração dos sacramentos, enfim, toda a vida da Igreja, deve ser “alimentada e regida pela Sagrada Escritura”. Mais ainda. Exaltando a “força e eficácia que se encerram na Palavra”, o documento conciliar afirma que ela constitui “sustentáculo e vigor para Igreja e, para seus filhos, firmeza na fé, alimento da alma, pura e perene fonte de vida espiritual.” Comprovando essa afirmação, cita-se a bela passagem da carta aos hebreus, que fala da Palavra como viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes, que penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração (Hb 4,12).

2. Acesso à Bíblia: as traduções

Como os livros sagrados foram escritos em línguas antigas, não mais entendidas pelos que iam abraçando a fé, as traduções tornaram-se necessárias. Assim, como lembram os Padres conciliares, “desde o início a Igreja acolheu, como sua, a antiquíssima versão grega  do Antigo Testamento, chamada “dos Setenta”, e tem sempre em honrosa consideração as outras versões orientais e as versões latinas, principalmente a chamada “Vulgata” (DV, n.22). A versão grega, tradução do hebraico, foi realizada em Alexandria, a partir do século III antes de Cristo, para uso dos judeus locais, que não mais entendiam o hebraico. Da mesma forma, as versões latinas, a partir do século II da nossa era, surgiram para uso dos cristãos de algumas regiões do Império Romano, que falavam o latim. Entre essas versões latinas, a mais famosa foi a realizada por São Jerônimo no início do século V, a “Vulgata”, que continuou em uso na liturgia romana até o Concílio Vaticano II. Mas desde a Idade Média começaram as versões nas línguas vernáculas, versões que hoje se multiplicam. A propósito, afirma a Dei Verbum: “Como a palavra de Deus deve estar à disposição de todos, em todas as épocas, a Igreja cuida, com materna solicitude, que se façam para as várias línguas versões adequadas e corretas, principalmente dos textos originais dos livros sagrados” (DV, n.22).

3. Versões a partir dos originais

Essas versões “a partir dos textos originais” são uma novidade na Igreja Católica, que antes exigia como texto-base da tradução a versão latina da Vulgata. A situação mudou a partir da encíclica Divino Afflante, de Pio XII, de 1943. Quanto à Vulgata, a própria Igreja reconheceu a necessidade de corrigi-la a partir da crítica textual moderna, providenciando para seu uso oficial a “Nova Vulgata”, promulgada em 1978. É sabido como, no Brasil, as traduções da Bíblia têm-se multiplicado, tendo o processo começado já antes do Concílio. Agora, desde 2001, a própria CNBB tem a sua versão oficial, a chamada “Bíblia da CNBB”.

Poder-se-ia perguntar o motivo de tantas traduções, não só católicas, mas dos protestantes: por que não se chega a uma versão única, inclusive ecumênica? O problema está no fenômeno linguístico da dificuldade de traduzir, e no fato de que as línguas evoluem cada vez mais rapidamente, além de outros fatores. Quanto à dificuldade de traduzir, ela é reconhecida por um dos tradutores do Antigo Testamento para o grego, que assim se exprime, no prólogo da sua tradução do livro do Eclesiástico: “Os vocábulos hebraicos, quando vertidos para outra língua, já não têm a mesma força. E não só neste escrito. A própria Lei e os Profetas, e o conteúdo dos outros livros, apresentam não pequena diferença, quando lidos no original” (Eclo, prólogo, vv. 24-26). Qual a solução? Quem tiver a possibilidade da fazê-lo, adquira uma edição alternativa, para fazer a comparação. Em todo caso, o essencial não é possuir a edição “mais perfeita”, mas, através daquele texto que temos, procurar conhecer sempre melhor o que o Senhor quer de nós e pô-lo em prática.

4. Os especialistas da Bíblia

A Bíblia, no conjunto dos seus livros, pelo fato de ter sido escrita há mais de dois mil anos, não é um livro fácil, embora tenha certamente bastantes páginas acessíveis. Por isso, mesmo sabendo que Deus se revela aos “pequeninos”, e oculta seus desígnios aos “sabidos” (cf Mt 11,25), ela merece e precisa ser estudada, explicada, comentada. E a própria Igreja, “instruída pelo Espírito Santo (cf Jo 16,13), se esforça para conseguir uma compreensão cada dia mais profunda do seu texto, a fim de incessantemente nutrir seus filhos com os ensinamentos divinos”, afirma-nos a Dei Verbum (DV, n.23, início do parágrafo). Por essa razão, fomenta devidamente também o estudo dos Santos Pais, tanto do Oriente como do Ocidente, dos primeiros séculos, que nos legaram homilias e comentários de perene valor.

Quanto aos “especialistas da Bíblia”, chamados de “exegetas”, o Concílio recomenda que os exegetas católicos, “unindo diligentemente suas forças, investiguem, sob a vigilância do sagrada Magistério, o texto sagrado”, oferecendo ao povo de Deus, por seu trabalho, o autêntico alimento das Escrituras. Assim, “aos que se dedicam aos assuntos bíblicos”, os Padres conciliares recomendam “que, renovando dia a dia os seus esforços, eles prossigam, de acordo com o sentir da Igreja, na execução do trabalho felizmente iniciado” (DV, n. 23, final do parágrafo). Com essas palavras, o Concílio reconhece e elogia o belo trabalho realizado pela exegese católica, especialmente desde a encíclica Providentíssimus Deus, publicada pelo papa Leão XIII em 1893: inúmeras pesquisas, artigos, traduções, teses, comentários bíblicos, tudo contribuindo decisivamente para o melhor conhecimento crítico e teológico da Bíblia Sagrada.

Pe. Ney Brasil Pereira,
Professor de Exegese Bíblica na FACASC/ ITESC
email: ney.brasil@itesc.org.br

Para refletir:

  1. Que significam as “duas mesas” na liturgia? Não há uma só mesa, a do Altar?
  2. Como a Bíblia foi escrita em línguas antigas, que não mais conhecemos, como se consegue o acesso ao seu conteúdo?
  3. Como se faziam as versões da Bíblia na Igreja Católica, antes da encíclica Divino Afflante, de Pio XII, de 1943? E depois?
  4. Por que não se chega, por exemplo, no Brasil, à edição de uma Bíblia única?
  5. Como se chamam os “especialistas da Bíblia” e qual o seu trabalho e a sua missão?

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