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VIII. DEI VERBUM – IMPORTÂNCIA DA BÍBLIA

Antes do incentivo final à leitura da Bíblia (DV, n.25), a Constituição conciliar detém-se sobre o lugar decisivo da Bíblia na Teologia. Poderia parecer uma recomendação óbvia, mas não é. Durante muito tempo, a Teologia católica privilegiava as fontes da tradição escolástica e do Magistério, recorrendo aos textos bíblicos apenas como comprovação da doutrina. Por isso, a Dei Verbum adverte: “A sagrada Teologia apoia-se, como em perene fundamento, na palavra escrita de Deus, juntamente com a sagrada Tradição, e nessa mesma Palavra se fortalece firmissimamente e sempre se renova, perscrutando à luz da fé toda a verdade encerrada no mistério de Cristo” (DV, n.24, início do parágrafo). Esse “perscrutar a verdade” é característico da Teologia, chamada também a “inteligência” da fé, a busca da compreensão da fé, ou seja, como dizia Santo Agostinho, é a “fé que procura compreender”. Esse apoio na palavra de Deus “fortalece firmemente” a Teologia e “sempre a renova”, ajudando-a a responder às questões que vão progressivamente surgindo ao longo da história.

1. “Alma da Teologia”

Nesse ponto, depois de relembrar que “as Sagradas Escrituras contêm a palavra de Deus e, porque inspiradas, são verdadeiramente palavra de Deus”, os Padres conciliares assumem a exortação já feita por Leão XIII e retomada por Bento XV: “o estudo das Escrituras seja como que a alma da sagrada Teologia” (DV, n. 24), isto é, aquilo que  vivifica e dá consistência à “ciência da fé”. Da mesma forma, das Escrituras deve nutrir-se o ministério da Palavra  em todas as suas formas, por exemplo na catequese e na instrução, mas especialmente na homilia litúrgica. A propósito, sobre esse assunto, veja-se o que determina a Constituição  Sacrosanctum Concílium,  sobre o interrelacionamento entre  Escritura,  pregação, e  catequese litúrgica (SC, n.35). Sobre a pregação especificamente, a SC afirma que ela “deve, em primeiro lugar, haurir os seus temas na Sagrada Escritura e na Liturgia, sendo como que a proclamação das maravilhas divinas na história da salvação”.

1. Ministros da Palavra

Depois, dirigindo-se a “todos os clérigos”, sobretudo os presbíteros, diáconos, catequistas, todos os que se dedicam ao ministério da Palavra, a Dei Verbum exorta a que “se apeguem às Escrituras por meio de assídua leitura sacra e diligente estudo, para que não venha a ser ‘vão pregador da palavra de Deus externamente quem não a escuta interiormente’” (DV, n.25, no início do parágrafo). Ora, essa “escuta interior” só é possível mediante a leitura e o estudo, também orante, da Escritura. Quanto à “leitura orante”, é um método antigo que se tem difundido amplamente, constando de 4 passos: leitura, reflexão, oração, ação.

2. Cristo e a Escritura

Finalmente, lembrando a palavra de São Jerônimo sobre a necessidade do conhecer a Bíblia para conhecer Jesus Cristo, porquanto “ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”, o Concílio exorta com veemência  todos os fiéis cristãos, principalmente os religiosos, a que, “pela frequente leitura das divinas Escrituras, aprendam a eminente ciência de Jesus Cristo (Fl 3,8).” Alguém, no entanto, poderia objetar: Para conhecer Jesus, não bastam os Evangelhos ou, no máximo, o Novo Testamento? Acontece que o próprio Senhor Jesus venerava, conhecia, valorizava o Antigo Testamento, que dele fala de várias maneiras. Por isso, para conhecê-lo, devemos também conhecer as Escrituras do Antigo Testamento, pois, conforme Ele mesmo disse: “São elas que dão testemunho de mim” (Jo 5,39).

3. Aproximar-se do texto

Concretizando o apelo, os Padres conciliares exortam: “Acheguem-se, pois, de boa mente ao próprio texto sagrado, quer pela sagrada Liturgia, repleta da palavra de Deus, quer pela leitura pessoal, quer por cursos apropriados e outros meios que […], hoje em dia, louvavelmente se difundem por toda parte” (DV, n.25, ainda no primeiro parágrafo). Graças a Deus, esses “cursos apropriados e outros meios” de estudo da Bíblia continuaram, e continuam difundindo-se. Esse estudo, porém, não pode ser desacompanhado da oração, “a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e seus filhos. A propósito, é lembrado aqui um pensamento de Santo Ambrósio, o mestre de Santo Agostinho: “A Deus falamos, quando rezamos; a Ele ouvimos, quando lemos suas divinas palavras”.

4. Subsídios aconselhados

Ainda entre as recomendações, a Dei Verbum confia aos Bispos em suas dioceses o cuidado de “educar oportunamente os fiéis para o correto uso dos livros sagrados, sobretudo do Novo Testamento, e de modo particular, dos Evangelhos, por meio de versões que sejam acompanhadas das explicações necessárias e realmente suficientes” (DV, n. 25, segundo parágrafo). Nesse ponto, graças a Deus, tem sido grande a criatividade das editoras católicas, sem falar da criatividade bíblica dos nossos irmãos separados. Outro subsídio aconselhado são “edições da Bíblia munidas de anotações apropriadas para uso também dos não-cristãos e adaptadas às suas condições”. Também essa recomendação tem sido atendida especialmente pelas Bíblias de estudo, com amplas notas e comentários, como a Bíblia de Jerusalém, cuja primeira edição completa, brasileira, saiu em 1981; a Bíblia Ecumênica, traduzida do francês em 1994, e a “Bíblia do Peregrino”, traduzida do espanhol em 2002.

A Bíblia da CNBB, lançada em 2001, tem notas sucintas, mas excelentes introduções a cada um dos 46 livros do Antigo e dos 27 livros do Novo Testamento.

5. Conclusão

A conclusão do nosso estudo só pode ser a da própria  Dei Verbum, em cujo epílogo os Padres conciliares expressam a sua esperança e desejo de que “pela leitura e estudo dos livros sagrados seja difundida e glorificada a palavra de Deus (2Ts 3,1), e que o tesouro da Revelação, confiado à Igreja, encha cada vez mais os corações humanos” (DV, n.26). Por fim, os Padres conciliares referem-se novamente ao interrelacionamento entre as “duas mesas”, a da Eucaristia e a da Palavra: “Assim como a vida da Igreja se desenvolve pela assídua participação no mistério eucarístico, assim é lícito esperar um novo impulso da vida espiritual de uma acrescida veneração pela palavra de Deus, que permanece para sempre (Is 40,8)”. A propósito, é notável como o primeiro documento aprovado pelo Concílio, a Sacrosanctum Concilium, em 1963, tratou da Liturgia e, portanto, da Eucaristia; e a Dei Verbum, um dos últimos, em 1965, focalizou a divina Revelação, transmitida precisamente pela palavra de Deus.

Pe. Ney Brasil Pereira,
Professor de Exegese Bíblica na Facasc/Itesc
email: ney.brasil@itesc.org.br

Para refletir:

  1. O que é a Teologia, e qual o seu objetivo?
  2. Em que sentido a Bíblia é a “alma da Teologia”?
  3. Para conhecer o Senhor Jesus não bastam os evangelhos?
  4. Quais subsídios para o estudo da Bíblia você conhece?
  5. Como você avalia o fato de que o primeiro documento aprovado pelo Concílio foi sobre a Liturgia, e um dos últimos foi a Dei Verbum? Qual a relação entre um e outro?

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