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IV – ORGANIZAÇÃO DOS SEMINÁRIOS MAIORES

Toda a formação deve estar coerentemente adaptada ao fim pastoral

Para o Concílio Vaticano II o seminário não é uma relíquia do passado. Os padres conciliares reafirmam sua atualidade, importância e necessidade: “os seminários maiores são necessários para a formação sacerdotal” (OT 4). Com esta afirmação o Vaticano II confirmava a decisão do Concílio de Trento que, no dia 15 de julho de 1563, aprovou o decreto Cum adolescentium Aetas, que recomendava a criação de seminários em cada diocese. Esta relevante medida dotou a Igreja de um valioso instrumento para o cuidado das vocações ao ministério presbiteral. O Vaticano II considerou esse instrumento fundamental e imprescindível. Depois de 450 anos a mesma convicção dos bispos de Trento, permanecia no coração dos bispos do Vaticano II: uma verdadeira reforma da Igreja somente seria possível, a partir de uma reforma profunda dos pastores, isto é, dos bispos e padres.

Contudo, os bispos do Vaticano II tinham clareza sobre as enormes mudanças que tinham ocorrido nas famílias, na Igreja e na sociedade desde o Concílio de Trento e por isso estavam convencidos que também a formação sacerdotal precisava passar por mudanças. Certamente o seminário, enquanto tal, continuaria a ser uma estrutura essencial para a vida da Igreja, mas os novos desafios postos a formação sacerdotal, reclamavam respostas novas, em particular, no que tange a disciplina interna, a presença do seminário na vida diocesana e suas formas de interação com a sociedade.

Segundo a Optatam Totius a finalidade que deve ordenar, conduzir e harmonizar toda a formação sacerdotal é a de formar “verdadeiros pastores de almas, a exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo, Mestre, Sacerdote e Pastor” (OT 4). A questão da finalidade é uma questão fundamental para qualquer projeto educativo. Definir o “fim” é voltar-se para o horizonte para o qual se orienta todo o processo. A delimitação da finalidade formativa é um sinal evidente que se conhece o ideal a ser atingido. Vale aqui a sabedoria popular: “para um barco que não sabe aonde quer ir, nenhum vento é favorável”.

A formação de pastores é o objetivo principal, o elemento nuclear que condensa todos os vários elementos do projeto formativo do seminário. Anos mais tarde, a Pastores Dabo Vobis desenvolveu essa idéia afirmando que “se trata de formar um pastor, configurado a Jesus Cristo, Cabeça e Pastor, e que participa da caridade pastoral de Cristo” (PDV 23).

Para harmonizar e equilibrar as diversas dimensões da missão sacerdotal o Vaticano II buscou a categoria unificante da teologia do tríplice múnus (profético, sacerdotal e real). O Concílio aplica a teologia de tríplice múnus a Cristo, aos ministros ordenados e a todos os fiéis batizados. A teologia de tríplice múnus aparece como uma resposta a forte concentração sacerdotal que durante séculos tinha marcado a vida e a missão dos presbíteros. Desde muito tempo o padre era visto mais como homem do culto e menos como o homem da palavra e guia da comunidade. Na teologia do Vaticano II a missão do padre ao serviço do Povo de Deus inclui não apenas a celebração dos sacramentos, mas também o anúncio da palavra e a guia pastoral das comunidades. O padre não pode excluir nem sublinhar um desses aspectos. Ao mesmo tempo, deverá ser a exemplo de Cristo, sacerdote, mestre e pastor. E para esse tríplice missão o seminarista deve ser preparado:

Preparem-se, pois, para o ministério da palavra: a fim de que entendam sempre melhor a palavra revelada de Deus, que a possuam pela meditação e a exprimam por palavras e atitudes; para o ministério do culto e da santificação: a fim de que, pela oração e o desempenho das sagradas celebrações litúrgicas, realizem a obra da salvação através do Sacrifício Eucarístico e dos Sacramentos; para o ministério pastoral: a fim de que saibam representar diante dos homens a Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em redenção de muitos” (Mc 10,45; cf. Jo 13,12-17), e que, feitos servos de todos, ganhem a muitos (cf. 1 Cor 9,19).

O Concílio deseja que os seminaristas saibam “representar Cristo diante dos homens”. Essa representação não deve ser entendida na acepção comum, segundo a qual o representante age em substituição do representado, mas no sentido especial de que o representado opera no representante, de modo que o padre é, na Igreja e para a Igreja, “a representação sacramental” ou seja o “sinal” vivo, o “ícone” e a “atualização” da permanente presença e ação do Senhor Jesus, Cabeça e Pastor.

Ao insistir na apresentação de Cristo como Servidor, o Concílio previne os futuros padres da tentação de fazerem do ministério um meio para conquistar poder, dinheiro, honras e privilégios. A marca do padre deverá ser sempre a humildade de quem se reconhece um simples trabalhador na Vinha do Senhor.

A Optatam Totius determina que todos os aspectos da formação, o espiritual, o intelectual e o disciplinar devem estar ordenados para a finalidade pastoral da formação presbiteral. O Concílio entende o termo “pastoral” em sentido eminente e não enquanto distinto dos outros aspectos da formação, mas incluindo-os a todos. Toda formação humana, espiritual e acadêmica que o seminarista recebe deverá ser colocada a serviço da sua miss/ao pastoral.

O Concílio sabe que a formação sacerdotal é um projeto ambicioso, cuja meta só pode ser atingida com a graça de Deus, com empenho dos próprios formandos e com a dedicação constante da equipe de formação, que inclui os superiores dos seminários, os professores e o bispo diocesano. A comunhão entre os diversos membros da equipe formativa é uma condição indispensável para a realização do trabalho formativo, por isso o número 4 de Optatam Totius termina dizendo: “trabalhem diligente e concordemente todos os superiores e mestres, obedecendo fielmente à autoridade do bispo”.

Pe. Vânio da Silva
Reitor do Seminário Teológico de Florianópolis
E-Mail: pe.vanio@ig.com.br

 

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